Fome às avessas, de Magno Catão

Quando nasci, me deram olhos de comer o mundo. E tão grandes eram meus olhos, pretos e redondos como bolas de gude, que houve pouco espaço para a boca. E eu devorava as pessoas, seus gestos de amor ou de desprezo, o amaciar dos cabelos com dedos finos ou grossos, suaves ou grosseiros. Mas o tamanho dos meus olhos estragou os meus lábios. Eu pouco falava porque minha boca era tão pequena e tinha medo de que as minhas palavras vagassem pelo espaço como muriçocas transmitindo um ruído fino. Eu compensava minha deficiência silábica engolindo, engolindo com os olhos as casas, os muros carcomidos pela chuva, o chapéu de folhas largas de árvores muito, muito antigas. Quando eu nasci, disseram que eu não teria nada mais que olhos muito grandes. E por serem enormes, tudo caía dentro dos meus olhos: pássaros, lesmas, cães de rua, besouros, bonecos, a fina poeira dos móveis, as frestas das paredes. Meus olhos também caíam dentro deles mesmos e aí eu conhecia o tamanho de um abismo, eles caíam até o fundo e eu descobria monstros, pátios desertos, florestas escuras. Quando eu nasci, me deram uma visão de águia e lábios quase inexistentes. Nas fotos, os olhos ocupavam todo o rosto. Nem que eu sorrisse, gritasse, fizesse caretas a boca aparecia. Depois me deram por mudo, pensaram que eu tinha tragado todas as palavras do mundo dentro dos olhos. Mas deles também saíam coisas, grandes rios salgados quando eu lembrava da minha boca mais fina que uma linha, da minha incapacidade de cantar, como se em mim faltasse uma perna ou um braço.  Também jorravam dos meus olhos algumas estrelas, brilho, muito brilho quando eu descobria paisagens grandes, tão grandes. Paisagens douradas. Paisagens roxas. Paisagens da aurora ou do crepúsculo. Todas flutuavam e dançavam na ardência dos meus olhos, olhos de comer o mundo.”

Imagem: reprodução do quadro “Le Faux Miroir”, de René Magritte

Comentários

There is 1 comment for this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

4 + dezoito =

ao topo