Fome, como eu nunca tinha visto

Por Fábio Zanini
UOL/FSP

JUBA (SUDÃO) – Fome. Eu já andei razoavelmente pela África para ver gente obviamente com fome, prostrada e sem energia nem mais para mendigar. Em Juba, eu vi algo novo, que só conhecia por imagens de TV. Crianças esqueléticas, obviamente com parcas chances de sobreviver, com moscas passeando pelo seu rosto, corpo curvado e pernas que parecem varetas. Aquelas crianças famosas da Etiópia, do Live Aid, do “We are the World”.

Elas existem ainda na África, é certo, mas são bem menos frequentes agora do que há 15 ou 20 anos. Para chegar às crianças famélicas, é preciso enfiar-se em terras de ninguém, vilarejos colados a desertos, aonde não chegam estradas, a centenas de quilômetros das cidades mais próximos. E ainda assim há uma época certa para esse macabro turismo da fome. A colheita tem de ter fracassado. Uma guerra precisa ter estourado. A chuva precisa não ter aparecido.

Juba, a cidade que em um ano mais ou menos será a capital do mais novo país do planeta, muda os conceitos de qualquer um bitolado nesses paradigmas. Em Juba eu vi a fome como nunca havia visto. No centro, a 10 minutos do aeroporto, ao lado de hotéis, lojas e restaurantes.

Só não foi uma surpresa completa porque a mulher responsável pela coordenação da ajuda humanitária da missão da ONU, Lise Grande, já havia me alertado. Altos funcionários da ONU geralmente morrem de medo de jornalistas e respondem platitudes qualquer que seja a pergunta, mas essa senhora, uma norte-americana, foi direto ao ponto. Mal havia começado a entrevista ela sacou um folheto com o título de “scary statistics”. Estatísticas assustadoras.

Sinta o drama:

-mais de 90% da população do sul do Sudão vivem com menos de US$ 1 por dia, o índice considerado a linha de pobreza;

-a fome atinge 45% da população. Destes, 18% sofrem de fome “crônica”, um estado mais perigoso;

-uma em cada sete mulheres grávidas morre por falta de assistência;

-um em cada dez bebês morre antes do primeiro aniversário; um em cada 7 morre antes do quinto aniversário;

-menos de 10% das crianças são vacinadas;

-apenas 6,4% da população têm acesso a esgoto tratado;

-apenas 1,9% das crianças completa a educação primária;

-92% das mulheres são analfabetas.

E, para ela a pior das piores estatísticas: uma garota de 15 anos tem mais chance de morrer dando à luz do que de completar o primeiro grau na escola.

Assustou? Esse é o futuro novo país, que já nascerá o mais pobre do mundo. E que muito provavelmente desabará num ciclo destrutivo de pobreza e guerra civil, se não houver ajuda externa.

Mas estatísticas são apenas estatísticas, e era preciso ver esse quadro de perto. Encontrei as pessoas que dão vida a esses números no Al-Sabah Children Hospital, no centro de Juba.

São apenas cem leitos, insuficientes para a demanda. Não há máquina de raio-x. A ventilação é insuficiente, então o jeito é passar as tardes calorentas no pátio, sentados embaixo de árvores, ou nos corredores.

Lá se reúnem mães com seus filhos esquálidos. Alguns de tão magros rejeitam a receita do Unicef para a desnutrição crônica, um composto de leite enriquecido com vitaminas e uma pasta de amendoim. Eles desenvolveram anorexia e choram toda vez que pinga uma gotinha em suas bocas.

Amuna, 45 anos, segura seu filho Lege, de 2 anos, no colo. “Não tenho comida nem trabalho”, diz, numa frase que se repete pelo ambiente.

Um garotinho de nome Emanuel, 1 ano, está assustadoramente desnutrido, o crânio inchado e os membros sem força para se manterem rígidos. Chora o tempo todo no colo da mãe, Mary, 30.

“Ele sofria de malária. Eu vivo sozinha desde que meu marido morreu”, afirma ela. O bracinho dele mede 6,5 cm de circunferência. Qualquer coisa abaixo de 12 cm já é estágio crítico de desnutrição.

Ronia Okote, um garoto de 1 ano de idade, teve, além da desnutrição, o acervo completo de doenças tropicais: febre amarela, malária, tifo. Mesmo assim, está há três semanas “internado”’ sobre um lençol no chão do hospital. Milagrosamente, sobreviveu e está melhorando. Já ganhou peso e deve ter alta em breve. Mas nunca se sabe quando precisará voltar.

Em um ano, volto a dizer, Juba deve ser capital de um novo país, se os habitantes dos dez Estados do sul do Sudão disserem “sim” à independência num plebiscito. Uma nação com dez milhões de habitantes, com área equivalente ao Estado de Minas Gerais, deve nascer.

Que país será esse?

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