Fomos até a Favela do Mosquito conversar com MC Priguissa

Naquele janeiro de 2014, Rafael Harrison já comemorava o relativo sucesso de seu ‘personagem’ MC Priguissa, um dos principais nomes da cena alternativa natalense. Eu e o repórter fotográfico José Aldenir fomos até a Favela do Mosquito fazer esta reportagem para O Jornal de Hoje. As alterações no texto foram superficiais, nada importante para o que foi publicado pouco mais de dois anos atrás.

No começo dos anos 1980, Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida consagrava Harrison Ford como estrela de primeira grandeza em Hollywood.

Depois de papéis menores em American Grafitti (1968), Apocalipse Now (1977) e no quarto episódio de Guerra nas Estrelas (1977), em que seu Han Solo teve certo destaque, Steven Spielberg o chamou para interpretar o professor de arqueologia em aventuras pelo planeta.

A trilha sonora, o chicote e a estética lotaram salas de cinema do Alasca à Papua Nova Guiné.

Encheria também a cabeça de uma mãe moradora da Favela do Mosquito, 30 anos atrás, durante a gravidez.

O filme norte-americano seria a chave da escolha do nome de seu rebento.

Nos finais de semana, em Natal, na hora em que Rafael Harrison Pereira Campos canta a primeira estrofe, uma metamorfose às avessas justifica a escolha de seu sobrenome.

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Rafael Harrison, o MC Priguissa, nasceu e cresceu na Favela do Mosquito, zona Oeste de Natal; “[…] desde que nasci é desse jeito aí”; ele faz uma música de ritmos caribenhos (raggae, dancehall, dub, hip hop, ska) com funk e eletrônica, chamada de raggamuffin;
Direto da periferia, ele se transforma no MC Priguissa, um dos principais fenômenos da cultura alternativa da cidade.

Eu e o fotojornalista José Aldenir estivemos no local onde a miséria emoldura a paisagem e instiga a música de Priguissa.

Nosso encontro foi marcado no areal ao lado da Compal, empresa de sucata e aluguel de guindastes que prenuncia a zona Norte, perto da ponte velha.

De longe avistamos o cabelo rastari em aquecimento para uma pelada.

Após cumprimentos de boas vindas, fomos em direção à avenida João Medeiros Filho e entramos no ecossistema da favela que margeia a linha do trem.

Segundo ele, são 300 famílias que se espremem em moradias estreitas, cujos quintais deságuam numa lama fétida.

“Toda eleição aparece alguém aqui prometendo que vai mudar isso, mas desde que nasci é desse jeito aí”.

Tínhamos entrado em um beco e víamos crianças descalças, sujas, em meio a podridão onipresente.

Uma menina que aparentava uns seis, sete anos, ao nos ver, falou para Priguissa que na noite anterior sua “mãe chorou muito quando a polícia veio aqui e levou pai”.

Batidas policiais são frequentes.

“Uma vez eles vieram aqui e bateram até em mulher e criança. As pessoas não denunciam com medo”, diz o músico.

Priguissa faz um som chamado de raggamuffin, mistura jamaicana que usa uma batida eletrônica para acelerar ritmos como o reggae, hip hop, dancehall, funk, reggaeton e tudo o que o Caribe tem a oferecer para sacudir a medula dos mais dispostos.

Seus shows têm belos exemplares da fatia mais delicada da humanidade, que travam verdadeiros duelos para ver qual está mais afiada na dança.

Do Mosquito para a Zona Sul

Da cultura alternativa, juntamente com a banda DuSouto, Priguissa costuma atrair muita gente.

Tanto que ambos, com frequência, são contratados para a mesma noite, diante da certeza de casa lotada.

“Já toquei em São Paulo, no Paraná, mas aqui é o canal para mim. Uso as gírias daqui, porque antes a galera do rap, da qual fiz parte, falava ‘mano’, ‘brother’, palavras que ninguém usa na periferia de Natal”.

Ele despontou com Essa Bóe, ode a uma ‘gostosa’ da terra do sol que, segundo um Priguissa sorridente, “casou”.

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Fenômeno atípico, a música de Priguissa é pouco valorizada na comunidade onde mora, mas faz sucesso entre natalenses de classe média frequentadores da cena alternativa e dispostos a dançar a noite inteira

Talvez parte dos leitores desconheça essa música, mas saiba que ela é um clássico em festas que costumam reunir até duas mil pessoas.

Temas como Mulher Verão, Amor bandido e Esse homi é um galado são entoadas por jovens que se identificam com a linguagem do gueto.

Fato curioso é que Priguissa tem forte apelo junto a classe média natalense.

“Eles acham as letras um pouco inteligentes e gostam de dançar. A galera da periferia acha estranho ainda, mas está chegando”.

Aos poucos ele saiu da internet e conquistou espaço em eventos de algumas das principais produtoras da capital potiguar.

Seu set com 22 musicas totaliza 67 minutos.

Acompanhado por um DJ e um guitarrista, faz em média um show por semana.

Bancado com recursos próprios e com a ajuda de amigos, como Jubileu Filho, ele lançou um DVD com imagens captadas por sete câmeras.

Rachaduras

Conversávamos com os pés na lama, na hora em que dois meninos se aproximaram, curiosos com os estranhos.

“Pra quê esse isopor aí?”, perguntou Priguissa a um deles.

“É pra pegar gato”.

“Pegar gato? Pra quê? Vai matar os bicho?”.

O garoto ficou sem graça e deu a entender que era só para ter o que fazer.

Uma brincadeira infantil, para quem falta tudo.

Pai de uma criança com quatro anos de idade, o MC é um ex-funcionário da Vicunha – seus pais e duas irmãs trabalham na fábrica da Guararapes.

O filho mora com a mãe em Ponta Negra.

Aluno de direito em uma faculdade particular, ele avisa que tem mudado as letras das músicas, agora mais “radicais”, com problemas do arrabalde.

Um cachorro esquálido late sem parar e atrapalha a entrevista.

Voltamos à frente da Favela do Mosquito (metros antes do posto da Polícia Rodoviária Estadual), onde um salão de beleza bem estruturado destoa da vizinhança.

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Autor de Essa Boe e Esse Omi é um Galado, Priguissa diz: “Já toquei em São Paulo, no Paraná, mas aqui é o canal para mim. Uso as gírias daqui, porque antes a galera do rap, da qual fiz parte, falava ‘mano’, ‘brother’, palavras que ninguém usa na periferia de Natal”.

Rafael Harrison ganhou o apelido de Priguissa por motivos óbvios.

Chegava cansado aos ensaios de uma antiga banda de rap, após o expediente na indústria têxtil.

“Eu cantava sentado, enquanto todo mundo ficava em pé. Aí começaram a me chamar de preguiça. Como eu não gostei do apelido, ele pegou”.

Rachaduras nas fachadas das moradias denunciam efeitos do trem que passa a poucos metros.

Antigas reivindicações são feitas durante todas as campanhas políticas.

“Eu queria que eles [os políticos] tivessem ajudado pelo menos o povo daqui a ter banheiro, mas até agora nada”.

Voltamos ao campinho da Compal.

Chegou a hora de Priguissa bater bola.

“Eu jogo desse lado, o do sol, onde ninguém quer ficar. A galera olha para mim e pensa que sou muito doido, que fumo maconha e tal. Mas eu não fumo nada e bebo muito pouco”.

Como Indiana Jones, ele procura tesouros escondidos em terras distantes de casa.

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

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