Formas híbridas

Por Leandro Sarmatz
BLOG DA COMPANHIA

O romance, romanção à século XIX, com aquela histamina tolstoiana, parece bem vivo: pense nos calhamaços de Franzen, por exemplo. Aquele debate, passadérrimo, aliás, sobre a morte do romance, não passou de conversa para escargot dormir. Bom para construir teorias. Reputações ergueram seus castelos. Mas há, nos últimos 30 anos, pelo menos, a prevalência de uma outra forma romanesca, outro (perdão o português) approach da realidade sensível (ops) na construção da prosa de ficção.

Falo dessas formas híbridas, desses romances (?) que têm fabulação, narrativa, laivos de ensaio (ou ensaios propriamente ditos), documento, algum jornalismo, relato de viagem. Ou então romances que usam as estratégias discursivas do ensaio, pegam emprestados a retórica e a legitimação daquilo que não é associado à invenção para então construir seu universo ficcional. É um gênero contemporâneo por excelência, me peguei pensando esses dias ao ler Limonov (Alfaguara), do francês Emmanuel Carrère, a história (biografia romanceada, romance biográfico, quase todo calcado no real) do russo Eduard Limonov (1943), autoproclamado Johnny Rotten da poesia russa, marginal, mendigo, sex symbol, astro, político fascistoide. É um livro que, embora tenha levado uma cacetada fenomenal do britânico Julian Barnes (resumo: Carrère está in love, metaforicamente, com seu russinho, e daí perde qualquer distanciamento, tal qual um Dante com sua Beatriz barbada), é uma das obras mais inteligentes que li nos últimos tempos.

Limonov me parece marcar uma culminância (problemática, inclusive) de um processo que, pelo menos desde Bruce Chatwin — passando por Sebald, Bolaño, Bernardo Carvalho — tem marcado a construção do romance. De que se trata? Nestes autores, a ficção vem envenenada pelo real sensível e narrativo, ou seja, não se trata mais de falar que a “marquesa saiu às cinco horas” (na equação azeda de Valéry), mas de trazer recortes de jornal sobre a marquesa, investigar sua criadagem, recriar a saída da marquesa, ir à fábrica de relógios. Claro: é um exemplo bobo, banal, pedestre e cômico. Mas que em Carrère é levado ao extremo: tanto que seu livro apenas apreende a forma do romance: o resto é construído a partir de entrevistas, confissões, livros do próprio Limonov. O real está tão próximo de tudo que parece por vezes dar uma rasteira na ficção, que sai enfraquecida do livro. As poucas passagens em que parece haver alguma fabulação são mais frágeis que tudo o que é “verdadeiro” (com mil aspas) na construção de Carrère. Será este o limite dessas formas híbridas?

* * * * *

Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo