Fotopoemas em pandemia: A arte e seus cotidianos afetivos

Para além do óbvio, a arte é um manancial de possibilidades que sedimenta vozes plurais e sentimentos únicos.

Mirar o olhar sobre o real circundante através da arte, é tarefa que exige desprendimento e imaginação criadora, a fim de romper com os limites do possível e alcançar as impressões do inominável e do invisível.

Ao longo da história da humanidade, a arte tem sido essa espécie de refúgio para onde o ser humano se volta quando tudo é vazio; ou ainda um tipo de lugar como um púlpito, sobre o qual se vociferam os clamores da coletividade, numa busca incessante por transformação.

Veja o ensaio “Transparências: corpos e vivências trans”

Não seria diferente nos tempos de pandemia em que vivemos neste 2020, ano que certamente ficará marcado como um dos mais emblemáticos da história dos homens e das mulheres sobre a Terra. A arte, diante de tantas ameaças aos direitos humanos fundamentais, tornou-se, agora, ainda mais necessária.

É daí que surgem os fotopoemas em pandemia, um diálogo interartístico entre o poeta Wescley Gama e o fotógrafo Állan Matson, ambos artistas e ativistas culturais de Currais Novos, Seridó Norte-rio-grandense.

Da seleção de 36 fotografias e 28 poemas, apreende-se registros de cotidianos afetivos dos mais diversos.

Veja o ensaio FOTOPOEMAS EM PANDEMIA

O olhar do poeta e do fotógrafo se entrecruzam em hiatos difusos, levando-nos a perguntar: quem nasceu primeiro? A palavra ou a imagem? Eu, particularmente, respondo: isso realmente importa?

Caminhando pelo percurso discursivo deste livro, brotam aos olhos cenas poéticas tocantes. Cada personagem evocado pelos poemas e fotografias ganham a forma de todos nós: costureiras, vendedores de frutas, casais, crianças, cangaceiros, bichos, plantas, seres inanimados – metonímias do humano primordial, parte abundante de nossa geografia sentimental.

O poeta Mário Quintana disse que “o fotógrafo tem a mesma função do poeta: eternizar o momento que passa”. A vida passa por nós através do cotidiano, e é o cotidiano a força de pulsão que rege os caminhos deste livro.

Desde os gestos de homens e mulheres comuns, jeitos simples de viver e conviver nas cidades do interior ou no campo; até os novos modos de ser e estar no mundo, que nasceram depois do surgimento da pandemia do coronavírus.

Penso que, numa época em que o isolamento social é algo tão necessário, debruçar-se sobre um livro cuja coluna dorsal é o AFETO, é algo que nos inspira a caminhar. Sim, porque é do afeto cotidiano e de cotidianos repletos de afetividade que este livro se compõe.

Percorrer essas páginas com o coração aberto é um abraço possível para o momento, e que resistirá às agruras desta época, lembrando-nos que a arte oxigena, liberta e salva, sempre.

Escritora, agente cultural, graduada em Letras e mestra em Estudos da Linguagem [ Ver todos os artigos ]

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