Fragmentada consistência

Ah, eu levo a vida em querer consistir. É importante, fundamental, consistir. Penso em consistir o tempo todo. Mas, em quê? Ora, cada um consiste no que lhe vale, ou no que pode. Queria mesmo era consistir em meu pai (a melhor consistência, me disse um dia tia Mônica essa coisa que eu já sabia, mas nunca tinha ouvido alguém dizer com tanta afirmação). Mas sou pouco, muito pouco para ser ele, então, consisto no que posso, a cada dia. E a cada dia procuro mais consistir.

Penso em gentes: penso em amigos, em família, em homem e filha que me teçam em brio e ternura. Penso em ternura, esta coisa que se insinua sempre, que aparece sempre, em todo lugar e hora, até quando menos se espera. Penso em livros, em quadros, em música. Um retrato (Dorian Gray), um príncipe (da Dinamarca), poemas (de Montale), fogo, terra, água e ar. Frida, Artemísia, Alma Mahler, Lou Salomé. Pessoa (s).

Penso em símbolos para me darem consistência. Não é só uma, são muitas as consistências de que preciso. Então, penso em símbolos: pérolas, dríades, máscaras, matrioskas, espelhos, bruxas, luar… São metáforas de mim. Mas serão as metáforas, consistências? Tanto quanto os deuses eram astronautas. Metáforas não são substâncias, não consistem, mas anunciam o ato de consistir. Metáforas são sempre possibilidades. Então, me aferro em pensar metáforas, tenho por elas um apego fascinado.

Será que consisto em amor? Amor é perfume, consisto? É sólido, a ponto de me dar sustança? Ou desmancha no ar, ou me desmancha? Quem deseja consistir em amor, é porque antes consiste um pouco em loucura. Disse Walt Whitman: “Já percebi que estar do lado de quem gosto de basta… Não peço delícia melhor. Mergulho nisso como num mar”. Ah, mas a felicidade é um deus escorregadio, sigo precisando consistir outras consistências.

Sou humana, no que consisto é humano: suor, sangue e lágrimas de deuses exagerados. Se eles pecam por exagero, que será de nós? Ficaremos pendurados como pêndulos nos extremos dos deuses? Consistiremos nós no cansaço deles, no que resta dos seus excessos? Se eles são por demais inteiros, que sobras somos nós?
Consistimos mesmo é em fragmentos, mas querendo inteirezas. Estas, quando existem, existem porque nos arrastam e não porque as alcançamos. Por mais que desejemos inteirezas, não dá para ser inteiro por obra e graça do desejo. Mas às vezes, mesmo sem querermos, a inteireza nos arrebata, e aí não dá para ser menos do que inteiros, ainda querendo não ser. Somos umas contradições.

Guardamos segredos de nós mesmos. Procuramos respostas que nunca chegaremos a encontrar. Temos medo de conhecer os nossos medos. Consistimos em mosaicos. Somos ultrapassados por nós mesmos e nisso consiste a nossa maior frustração: algo de nós foge sempre ao nosso próprio controle. Algo de nós sempre nos foge. De quando em vez nos foge a substância. Ficamos vazios, desejantes, consistimos em seres que procuram. Procurar é, pois, a consistência. Em que consisto? Consisto na procura.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Tião Carneiro 12 de Março de 2012 22:14

    Ao leitor – ou a este comentarista, pelo menos – consiste tão somente a intransitividade, a sombra estática. Procurara o quê? Se seu texto já é uma bela louça de consistência, por que dele sair e correr o risco de se ferir numa inconsistente feda? Nele, os olhos ficam surdos, pois só têm ouvidos para enxergar as encorpadas pisadas do intelecto. Que os procuram, evidentemente.

    Seu texto, caríssima poetisa, tornou-me compacto de prazer.
    |Afetuoso abraço,
    Tião

  2. Carmen Vasconcelos 13 de Março de 2012 8:22

    Abraço para você, Tião.

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