Fragmento da paisagem

Por Arthur Dapieve
O GLOBO – VIA CONTEÚDO LIVRE

De volta ao Japão, depois da tragédia

Eram 11h32m de uma quinta-feira. Eu estava fazendo carinho na cabeça de um veadinho de chifres serrados, cuidando para que seus amiguinhos não me arrancassem o mapa do bolso do casaco ou não me mordiscassem o traseiro em busca de bolachas de ração. Sim, eu tinha voltado ao Japão ainda mais necessitado de uma iluminação num templo zen-budista, mas foi ali, em um parque de Nara, que entendi tudo. Acho.

Eu passara parte de minhas férias de fevereiro do ano passado no Japão e, depois da desgraceira do 11 de março de 2011, sentira a obrigação moral de voltar. Os japoneses haviam me tratado tão bem — estabelecendo novos padrões de civilidade e gentileza na minha vida — que eu precisava expressar solidariedade de forma mais direta do que simples palavras em jornal. No último ano, o número de visitantes caiu 30%.

Fundada em 710 para ser a segunda capital do Japão, Nara era uma nova escala no roteiro do meu retorno. Pouco antes do encontro com alguns dos mil cervos que transitam entre os templos budistas e xintoístas da cidade, no papel de mensageiros dos deuses, um senhor se aproximara de nós, falando bom inglês (o que não é comum). Quando soube que era a nossa segunda visita ao país, ele riu e perguntou: “Por que alguém iria voltar ao Japão?!” A autoestima japonesa já esteve mais alta. No ano passado, além da tripla desgraça, o PIB do país foi ultrapassado pelo da China.

No Brasil, muitos nos faziam outra pergunta quando ficavam sabendo que, sim, iríamos voltar ao Japão em 2012. “Mas vocês não têm medo de terremoto, tsunami, vazamento nuclear?”, espantavam-se. Bem, o que essa gente acha que aconteceu no recente desabamento dos prédios atrás do Municipal ou na enxurrada da Serra no ano passado? Será que acha que a usina nuclear de Angra é 100% segura? Isso, claro, para não falar na possibilidade de morrer no trânsito ou num assalto, ínfima no Japão.

Com seus olhões de Bambi, os veadinhos de Nara se inscrevem no quadro de uma nação que tem obsessão pela beleza. Tudo deve ser bonito, elegante, fofo. Até as adolescentes que andam fantasiadas de Minnie por Harajuku, em Tóquio, são sintomas dessa “estetização” da vida, assim como a arte dos arranjos florais ou a apresentação dos pratos. Essa atenção à forma, porém, não implica desatenção ao conteúdo. No caso da comida, o guia “Michelin” hoje confere mais estrelas ao Japão do que à França.

No Ocidente, preferimos enxergar o quanto há de eterno na beleza, ou vice-versa, a ponto de meu xará Schopenhauer ter dito que a beleza traz sempre algo de inumano. Logo, de imortal. No Japão, a beleza é associada à transitoriedade. Pense nas características evanescentes da música tradicional japonesa ou na música clássica de um Toru Takemitsu (1930- 1996), inspirada no folclore. Não à toa, o país é tarado pela floração da cerejeira, regular, linda e fugaz — o ciclo da vida reencenado em versão pocket nos parques, que se vão se tornando cor-de-rosa claro conforme a primavera sobe pelo arquipélago espichado de Sul a Norte. A descarada apreciação da juventude, que a nossos olhos amendoados e judaico-cristãos pode fazer soar o alarme de “pedofilia”, se inscreve na mesma associação entre beleza e efemeridade. Tudo passa, tudo passará.

Indicado ao Oscar de melhor curta documentário, “The tsunami and the cherry blossom”, da inglesa Lucy Walker, relaciona a onda gigante que lambeu a costa leste do Japão, matando cerca de 20 mil pessoas, com a floração da cerejeira. Um sobrevivente declara: “Se as árvores continuam lá, os seres humanos também têm de continuar”.

Há séculos os japoneses continuam lá, em milhares de ilhas empoleiradas à beira de três placas tectônicas. Terremotos, tsunamis e vulcões lhes deram uma consciência exacerbada da morte. Não apenas de sua inevitabilidade como de sua provável iminência. A natureza hostil moldou-lhes o caráter. No livro “Les japonais”, Karyn Poupée, correspondente da France Presse em Tóquio, compara: “Assim como o praticante de aikidô se apoia na força, na agressividade e na vontade de prejudicar de seu adversário para dominá-lo e reduzir a sua tentativa a nada, os japoneses utilizam suas adversidades como cimento da sociedade e como trampolim de desenvolvimento, transformando-as em pretextos para pesquisas e em fontes inesgotáveis de inovação.”

Isso significa ter, no iPhone, um aplicativo que avisa em tempo real sobre cada terremoto registrado no Japão. Intensidade, epicentro, profundidade, possibilidade de tsunami. Durante um jantar num restaurante cingapurense, no bairro de Roppongi, Tóquio, os avisos podem se suceder a cada quinze minutos: 3.1, 3.4, 3.2, 4.1 na Escala Richter… Ninguém perde o apetite por isso. Nos dias imediatamente seguintes ao 11 de março de 2011, lembro- me de um professor inglês de Engenharia entrevistado pela BBC dizer, sem esconder a admiração, que se você está no Japão e ocorre um terremoto forte, a melhor coisa a fazer é ir para dentro de um prédio.

A percepção de que vida e morte andam de braços dados, e de que haja o que houver o grupo sobreviverá ao indivíduo, ajuda a entender a postura estoica dos japoneses diante das tragédias. Entristecer-se, sim, desesperar, jamais. Talvez ninguém tenha expressado melhor a nossa fragilidade do que um calígrafo mencionado por Yasunari Kawabata em “O mestre de go”, Hanpou Yamaguchi: “A vida é um fragmento da paisagem”.

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