Fragmentos de cartas…

Fragmentos de cartas, poemas, mentiras, retratos*… (ou de como se tenta um conto a partir de um trecho de música de Chico Buarque)

Contar-te a minha vida? A minha vida nunca serviu a uma narração. Posso apenas descrever-me, pois não tenho acontecimentos, nem movimentos. Tudo me é aleatório, e passa. Sempre tenho de arriscar. Aí tu me pedes para contar-me. Espera. Peço-te para esperar, porque não sei desvencilhar-me do enredo, por isso sou imóvel. Não te quero contaminar com a minha imobilidade, mas tu, ao me pedires uma história… Estou descarnando palavras para ti, mas não sei se conseguirei dizer-te da minha imobilidade…
(…) Acostumei-me com os restos, sou residual, vivo no mínimo. Tu, não, és extensivo. Somos eu, água, e tu, fogo. Aprendi a receber e aceitar. Tu modificas, tu transformas…
(…) Tu me pedes que eu me sente aos teus pés e te fale de mim. Contudo, aos teus pés tu tens o mundo inteiro e, como se não te bastasse, tu tens… Basta me olhares e me tens a mim, que tenho esta despenteada dependência dos teus olhares…
(…) Ah, pensa bem: eu te disse que me acostumei com os restos, com os resíduos que ficam das vidas dos mundos alheios. Por isso escrevo, por isso também eu amo deste jeito, com este amor que é desterro…
(…) Como poderia eu seduzir-te, oferecendo-te uma timidez desembainhada? Agora, espera, ainda, preciso ressuscitar as cartas para poder dizer-me… Para me entender, antes tu deverias entender as matrioskas.
(…) As cartas, vestidas de alma e despidas de todo o resto, cortando adeuses em duas partes, como os gritos sonâmbulos cortam os pesadelos…
(…) Não tive os… do amor. Como já disse, meu amor é um desterro, sou feita de exílios e assim eu era quando tu chegaste, pela orla de um devaneio. É possível apaixonar-se por uma palavra? Apaixonei-me pela palavra devaneio… Foi…
(…) Havia também a infância subterrânea, empalada de medos. Não tinha radar para pressentir deus, nem outros bichos. Como poderia então supor tua distância, tua… Era preciso que… Era preciso que descrevesses a tua distância com a exatidão de uma lâmina.
(…) Tu me escutas, agora. Eu escuto o quanto me escutas. Estou encharcada de fraquezas, com a polpa exposta. Preciso de crostas e portas, para preservar a sanidade. Não, tu não tens nada a ver com isso, tu passas de mim, a cada instante.
(…) E agora não te prometo a verdade. Há muito, não faço promessas. Eu cumpro. Mas não te conto a verdade, porque se te contasse a verdade, eu não terminaria esta carta ressuscitada que é o meu conto. A verdade recomeça. Eu quero terminar. Não sei, nunca soube tornar perene a palavra. A palavra secou. E tu esperas palavras secas. Pois eu te juro: antes que o galo cante, antes que o sol de ardente convicção desmanche os vestígios da lua, isto estará terminado.
(…) Sei, foram as densidades, estas minhas defeituosas densidades, que te armaram sustos, armadilhas. Foram as minhas densidades, a minha vontade espessa e dura de ser, que só crescia, crescia, ocupando espaços em mim, em ti, no mundo. Sei…

*Fragmento de uma letra de música de Chico Buarque.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 7 comentários para esta postagem
  1. Carmen Vasconcelos 10 de agosto de 2014 15:22

    Obrigada, Sueleide.

  2. Sueleide Suassuna 8 de agosto de 2014 4:22

    Sublime!
    Com minha admiração,
    Sueleide

  3. Carmen Vasconcelos 5 de agosto de 2014 14:19

    Obrigada, amigos.

  4. Jarbas Martins 5 de agosto de 2014 8:45

    Ler Carmen Vasconcelos todos os dias devia ser lei.

  5. David Leite 5 de agosto de 2014 7:07

    Muito bom…
    Parabéns!

  6. carmen vasconcelos 4 de agosto de 2014 20:38

    Obrigada, Thiago.

  7. thiago gonzaga 4 de agosto de 2014 16:48

    Texto maravilhoso.
    De tirar o folego.
    Parabéns.

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