Frances Ha, de Victor H. Azevedo

Pouso uma margarida na xícara com café.

O corpo se solve brando: pétalas desmancham,

— que nem véus num afogamento,

enchendo os pulmões da sutileza, e pesando,

pesando, pesando como um abraço amargo.

Resta então a medula, a infraestrutura da flor.

Seu corpo, agora urdidura encharcada,

não se queixa: boia somente, sem alegria,

sem incorporar-se a tintura do café

ou a porcelana da xícara, sem dançar

Modern Love no meio de uma rua.

Resta o coração de pólen, herdeiro do malmequer.

Com a colherinha, resgato a margarida.

As pétalas são braços despencados,

E as entranhas vegetais, cordas desenforcadas.

Pouso-a no prato de sobremesa.

Indexo o cadáver da flor na memória

para caber num poema futuro.

Imagem: reprodução do quadro “O Beijo” (1927), de Max Ernst

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