fumar, não fumar

se eu não tivesse acendido aquele cigarro com aquela brasa que me disparou feito uma chispa pra mil e uma noites de odisseus e seus espaços acossados, talvez não houvesse a confusão dos livros, nem em mim e nem você e resnais, meu amor. talvez, se eu ascendesse um após o outro no próprio bira e então tivesse rompido nossos encouraçados alcançando os impérios sensoriais e dançavámos um tango nas amérikas.

certo é que eu devia ter deixado de fumar. mas meu corpo em transe é uma terra árida e precisa precisa de aventuras, júlios e gins, vê se me entende. não tem essa de falácia, são sombras em meio à essas tantas luzes da cidade. né nada disso não. sem essa de ficção científica, deixa disso de me querer ler as entrelinhas e vamos à fricção anatômica. deixa os mecanicismos e me traz umas laranjas que esses cheiros de frutas me deixam na lua, amazona nua. vamos viver a vida, meu bem, que estamos marcados pra morrer, cabra, e é lindo nosso encontro.

por que não aqui? uma cidade como tantas outras? sim, eu sei que nunca te vi, mas eu sempre te amei. por que te amo? ora, te amo porque devo te amar e isso nada tem com o tabaco. é o nosso filho… aquele filme só nosso que não se encontra em prateleiras dos sonhos idiotas do grande ditador do consumismo e seus cidadãos.

pode ser assim: quanto mais fervente mais ternurante. você me aparece com uma rosa que se despetala em seus dentes. eu acendo um cigarro porque tremo de saudades de tudo que não vivi. talvez você faça uma careta porque a fumaça embaça, por fora por dentro não. incríveis exércitos se formam à nossa volta porque tudo é um hino ao amor e eles sabem que somos deus e o diabo, bolas de sabão. up.

não. eu não acendo um cigarro. eu sou ninóthcka e o processo é só um: te olho, te caminho. e você lê meu corpo, livro de cabeceira. depois gozamos tudo que aconteceu naquela noite.

e fumamos um cigarro.

Comentários

Há 5 comentários para esta postagem
  1. Nina Rizzi 28 de junho de 2010 19:00

    Luis, obrigada pela leitura e comentário. quanto ao título e as diversas passagens “fumo não fumo”, é uma alusão ao filme de resnais “smoking/ no smoking”, em que oito personagens femininas (todas interpretadas pela mesma atriz, sabine ázema) e três masculinas (também interretadas pelo mesmo ator, pierre arditi), a partir de escolhas determinantes em suas vidas, mudam completamente seus destinos. nesse caso, fumar e não fumar, no meu texto e em resnais, é determinante, mas aqui muito mais imaginativo, já que tudo não passa de literatura. aliás, todo o texto faz alusões aos filmes do meu afeto.

    mas claro, fumar ou não fumar é uma escolha determinante na real, nesse caso eu continuar a fumar além de me colocar em situações constrangedoras nos lugares públicos, com amigos e minha filha, me levará fatalmente à uma morte lenta e dorida; sim, é preciso morrer, afundar não!

    em tempo: há uma semana que venho tentando deixar o tabaco e suas 4 e setecentas substâncias tóxicas.

    jarbas, feche os olhos e continuemos de mãos-dadas.

    beijos.

  2. Jarbas Martins 28 de junho de 2010 18:09

    valeu, nina. texto pra se ouvir com olhos bem fechados. inquietante.

  3. Luis Sávio Dantas 28 de junho de 2010 12:16

    Desculpe Nina Rizzi se a aborreço com o que vou dizer

    Eu que nos anos 70 estava com 18 anos, era na época a favor das drogas incondicionalmente, pois estas substancias sempre foram auxiliares da humanidade, seja na medicina seja na estimulação psicológica que produz mundos outros além da consciência. Vi alguns amigos se viciarem nos “picos”, aplicações de drogas de forma intra venosa, que matou e mutilou vários, revi então minha posição. A humanidade deve muito as drogas mais como sempre a sociedade de consumo e- ou, os interesses políticos e religioso a prostituiu. Carl Jung tenta demonstrar com sua psicologia, que há um mundo exuberante do inconsciente coletivo, que é acessado de forma mais profunda nas experiências religiosas e na criação artística, e também de forma quase sempre inconsequente nos surtos psicóticos. As drogas são o combustível das sinapses que fazem esse acesso, por isso são importantes, mais por outro lado Jung adverte que esse inconsciente por ser coletivo deve ser respeitado sob pena de sermos esmagados por ele. dai justifico assim as restrições que tenho hoje em relação ao uso de drogas. Poetinha já fumei tanto, e hoje sei que o cigarro mata, o cigarro não é só o tabaco, são dezenas de substâncias que os senhores da morte colocam para viciar e assim ser mais vendido. Manera vai, gosto tanto de ler o que você escreve !. O que Jung e Também Carlos Castaneda nos ensinam, é que podemos chegar em qualquer parte sem necessariamente usarmos drogas, e eu faço um adendo, sem usarmos drogas que nos matem.

    Um abraço

  4. Nina Rizzi 28 de junho de 2010 11:27

    damata, a primeira nao conhecia, que coisa linda, hein!

    AH, APAGUEI A LUZ. sabe como eu adoro herivelto e, ó: “não fale dessa mulher perto de mim” 😉

    beijos, querido.

  5. João da Mata 27 de junho de 2010 19:54

    Querida Nina, puxe ai uma cadeira e vamos tomar uma ao som de Nubya Lafaietti. Norte- riograndense porreta. Me dê a segunda. Apague a luz. Cantemos:

    Lama
    (Aylce Chaves/Paulo Marques)

    Se quiser fumar, eu fumo
    Se quiser beber, eu bebo
    não interessa à ninguém
    Se o meu passado foi lama
    Hoje, quem me difama,
    Viveu na lama também.
    Comendo da minha comida,
    Bebendo a mesma bebida,
    Respirando o mesmo ar
    E hoje, por ciúme ou por despeito,
    Acha-se com o direito de querer me humilhar.
    Quem és tu? Quem foste tu?
    Não és nada.
    Se na vida fui errada, tu foste errado também
    Não compreendeste o sacrifício, sorriste do meu suplício
    Me trocando por alguém
    Se eu errei, se pequei, pouco importa
    Se aos teus olhos estou morta,
    Para mim morreste também.
    Quem és tu? Quem foste tu?
    Não és nada.
    Se na vida fui errada, tu foste errado também
    Não compreendeste o sacrifício, sorriste do meu suplício
    Me trocando por alguém.
    Se eu errei, se pequei, pouco importa
    Se aos teus olhos estou morta,
    Para mim morreste também.

    PENSANDO EM TI

    (Herivelto Martins/David Nasser)

    Eu amanheço, pensando em ti
    Eu anoiteço, pensando em ti
    Eu não te esqueço
    É dia e noite pensando em ti.
    Eu vejo a vida, com a luz dos olhos teus,
    Me deixe, ao menos,
    Por favor, pensar em Deus.

    Nos cigarros que eu fumo,
    Te vejo nas espirais;
    Nos livros que eu tento ler,
    Em cada frase, tu estás;
    Nas orações que eu faço,
    Eu encontro os olhos teus,
    Me deixe, ao menos,
    Por favor, pensar em Deus.

    Nos cigarros que eu fumo,
    Te vejo nas espirais;
    Nos livros que eu tento ler,
    Em cada frase, tu estás;
    Nas orações que eu faço,
    Eu encontro os olhos teus,
    Me deixe, ao menos,
    Por favor, pensar em Deus.

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