Futebol, política e religião não se discutem…eles disseram

Recentemente, em conversa com uma mulher branca sobre racismo religioso, ouvi a expressão que intitulou esta crônica. A pessoa em questão talvez tivesse até boa intenção em resolver o problema, mas como o racismo e o colonialismo são questões que dominam o nosso inconsciente, é muito fácil cair em armadilhas.

O Brasil é o país dos ditados populares. O Ocidente inventou “verdades” coniventes e estratégicas para manutenção do seu plano de dominação, que são repetidas de geração em geração sem reflexão, como se fosse um fato e isso acaba por definir marcadores perversos para alguns.

Quando afirmamos que futebol, política e religião não se discutem, estamos informando que algumas questões são fatos universais e inquestionáveis. O que pode parecer inicialmente um discurso de respeito pelas escolhas dos outros, é, na verdade uma imposição da cultura hegemônica. Tudo é passível de reflexão e questionamento, todavia, quando reproduzimos esse ditado popular, estamos interditando, aceitando passivamente o que a classe dominante nos impõe.

Isso claramente pode ser observado nas escolas e universidades. Não discutimos políticas públicas. A maioria das pessoas nem sabe ao certo quais são as atribuições de um vereador, por exemplo, e isso ficou muito mais evidente nas últimas eleições, quando elegeram genocidas e corruptos. A grande maioria da população não sabe votar e nem se dá conta disso. Esse é o golpe de mestre da elite branca desse país.

O sonho de quase toda criança de periferia é se tornar um/a jogador/a profissional e ficar rico/a, mas isso é restrito a poucos, além de ser visto como única alternativa de ascensão social possível para negres. E isso, se você for homem, porque mulheres, ainda que eleitas por seis vezes (cinco delas consecutivamente) a melhor jogadora do mundo, como é o caso de Marta Vieira, não são valorizadas nem remuneradas da mesma forma.

O Estado é laico, no que diz respeito à religião, todavia o ensino religioso ofertado nas escolas parece mais aula de catecismo. É como se as escolas tivessem virado “puxadinhos” dos templos cristãos. Crianças que professam outra fé são negligenciadas e, ao sofrerem com a discriminação advinda do racismo religioso, são silenciadas. Aprendemos que a única religião válida, benéfica e universal é o Cristianismo e seguimos com medo dos batuques dos terreiros que anunciam o desconhecido. De onde vem esse medo? Quem decretou o Cristianismo universal? Com qual propósito?

“Shiuuuu! Silêncio!!! Religião, futebol e política não se discutem!”

 

Que pena…

 

Matam adversários de times rivais.

Matam, escravizam, sequestram e saqueiam os não cristãos e suas terras, destruindo nossos templos sagrados.

Matam (ou fingem facadas) em nome da política.

MARIELLE, PRESENTE! (três anos da sua morte- quem mandou matar?)

 

Não podemos discutir religião, política e futebol, mas podemos morrer em nome disso.

Africana em diáspora, educadora, escritora e pesquisadora. [ Ver todos os artigos ]

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