Futebol totalitário?

Por José Miguel Wisnik
O GLOBO

O Barcelona, jogando, não deixa o adversário jogar, a ponto de rasurar a fragilidade congênita das organizações humanas

A vitória acachapante do Barcelona sobre o Santos não é apenas um assunto da semana passada. Ela instaura uma questão de longa duração, que envolve o destino do futebol como um todo. Francisco Bosco falou aqui sobre o equívoco daqueles que quiseram ver no brilhantismo vencedor do Barcelona um eco das propriedades primordiais do futebol brasileiro. Essa atitude corresponderia a uma conversão tardia do velho “complexo de vira-latas” num “complexo de dálmata”: o time catalão não seria senão uma imitação do Brasil nos seus melhores momentos. Eu pessoalmente não me deparei com essa síndrome, mas com um sintoma oposto. Pessoas muito próximas e muito queridas, não necessariamente santistas, sentem com estranheza, diante do “futebol total” do Barcelona, o desconforto que se sente diante das manifestações totalitárias.

Um amigo me conta que, em Paris, um jovem bêbado, acho que francês, o interpelou acusando-o, como brasileiro, de render-se ao futebol “fascista” do Barcelona. A dupla acusação é toda despropositada, mas, nesse caso, a vaia de bêbado vale como índice de alguma coisa pedindo para se formular. Vejo futebol desde criancinha e acho, como Bosco e também como Tostão, que estamos diante de um fenômeno inteiramente novo. O futebol- arte clássico “jogava e deixava jogar”, compensando as fragilidades com uma sobra generosa de invenção (como fez, a propósito, o Santos do primeiro semestre do ano passado). No outro extremo, o time botinudo “não joga e não deixa jogar”, compensando a fragilidade com a tentativa de tirar vantagem da lei universal da entropia. O Barcelona, jogando, não deixa o adversário jogar, a ponto de rasurar a fragilidade congênita das organizações humanas. Que monstro é esse, que ataca sem se expor?

Uma das características que distinguem o futebol dos outros esportes modernos é a contingência da posse de bola. Em vez da alternância da posse ou do saque, como no basquete, no vôlei e no tênis, a bola é perdida incontáveis vezes para o adversário. Isso contribui para fazer do futebol uma narrativa mais parecida com a vida, cheia de alternativas épicas, dramáticas, líricas e trágicas. O Barcelona tem reduzido drasticamente essa característica estrutural do próprio jogo, o que chegou ao paroxismo numa partida de importância simbólica máxima como essa com o Santos. Uma distribuição coletiva implacável em campo, em permanente deslocamento, um domínio irritante do passe, uma neutralização instantânea do espaço adversário (a bola chegava muito dificilmente a Ganso e a Neymar, logo cercados, sem falar em Durval, Léo ou Henrique, incapazes de dar sequência a qualquer jogada que não fosse rifando a bola), em suma, um conjunto de ações conjuntas (o pleonasmo é proposital) fazia com que só o time catalão visse a cor da bola (as próprias bolas espirradas sobravam todas para eles). No limite, isso parecia não ter mais as propriedades erráticas do futebol, sendo, no entanto, uma extensão paradoxal, às últimas consequências, dos fundamentos do futebol. Com o que o Barcelona conseguiu a um só tempo anular as qualidades mais que evidentes do time do Santos e tornar flagrantes todos os defeitos menos visíveis.

Para complicar, há Messi. Tudo o que eu falei até aqui descreveria a seleção da Espanha, igualmente eficaz na posse de bola, mas muito menos capaz de perfurar defesas. O argentino Messi contribui decisivamente para dar a tudo isso um poder de fogo vertical, e para dissolver o perigo retórico do passe lateral numa perspectiva permanente de brechas achadas na defesa adversária, tantas vezes com tanta arte. Com isso, o time do Barcelona ganha simultaneamente um poder de ataque e uma solidez de conjunto que nem a seleção da Espanha, por um lado, nem a da Argentina, por outro, têm. Desfaz-se a oposição tradicional entre ataque e defesa, assim como a oposição entre o futebol jogado em prosa (baseado em passes e triangulações) e em poesia (baseado em surtos de criação imprevisível). Combinam-se numa nova fórmula o futebol europeu e o sul-americano.

De certo modo, o Barcelona dessa temporada realiza aquilo que o carrossel holandês prefigurou em surtos e em sustos na Copa de 1974. Mas como se, ao consumar a realização total da “ideia” (Tostão diz que o Barcelona, mais que um time, é uma ideia), ele decodificasse por um momento a impossível “quadratura do circo” de que se compõe o futebol (as bases desse argumento podem ser encontradas no meu livro “Veneno remédio — o futebol e o Brasil”). É por isso, justamente, que o futebol do Barcelona soa opressivamente totalizante, no sentido de que ecoa as formas do poder contemporâneo que dominam todos os meios em jogo, ao mesmo tempo em que ostenta um controle da situação que as periclitantes economias europeias perderam.

A construção da seleção brasileira de futebol está mais atrasada do que a dos estádios da Copa. Curiosamente, a primeira partida sob o comando de Mano Menezes, contra os Estados Unidos, prefigurou um futebol capaz de dar uma resposta própria àquele jogado pela Espanha campeã do mundo. Mas isso dependia, entre outras coisas que não cabe analisar aqui, da confirmação daquele Paulo Henrique Ganso, que hoje não persiste depois de três contusões longas e de insondáveis dramas contratuais. O entusiasmo por Neymar é totalmente justo do ponto de vista futebolístico, mas opressivo como mitificação psicomidiática, que parece ter a função suspeita de esconder a fraqueza atual do futebol brasileiro. Se esta vier à tona no momento decisivo, mais que a capacidade de reinvenção do futebol brasileiro, a culpa, num mecanismo bem conhecido, será jogada sobre ele.

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