GAMES: Milena Azevedo fala sobre mostra de jogos produzidos em Natal

Ontem (17) à tarde, conversei com alguém que milita sem virulência, que não perde a ternura jamais, em nome de duas causas importantes na agenda cultural de muito jovem: games e quadrinhos.

Falo da historiadora, quadrinista, roteirista e produtora Milena Azevedo.

Ela fechou com o Praia Shopping para realizar seis eventos ao longo do ano, o primeiro deles marcado para este final de semana (19 e 20).

É a Mostra de Jogos Digitais, uma parceria com o Instituto Metrópole Digital, ligado a UFRN, para levar ao público parte da produção de alunos.

Serão quatro computadores com games criados por estudantes, com acesso gratuito, dentro do horário de funcionamento do shopping.

“Conheço alguns alunos do curso de programação do IMD. E aí, conversando com o setor de marketing aqui do shopping, falei que seria massa mostrar alguns dos jogos que eu vi quando fui ministrar uma palestra lá para duas turmas sobre ter uma narrativa para um jogo, de pensar num roteiro para jogo. Não pensar só em fazer uma mecânica legal, lutas interessantes, sistemas de recompensas, não só ter um bom conhecimento de matemática e física, mas também em criar uma história, em enredo”.

Desse contato surgiu a ideia de expor os jogos e provocar interesse por uma indústria bilionária, maior inclusive que a do cinema – nos últimos cinco anos, o crescimento do mercado de games no Brasil oscilou entre 9% e 15% e rendeu mais de R$1 bilhão, em 2014; segundo o SEBRAE, são 61 milhões de jogadores brasileiros, o que representa o quarto mercado mundial em números absolutos e o 11º em lucratividade.

“A partir disso, fui me inteirando mais com eles, até que o professor Isaac Franco me chamou para fazer um jogo de ficção cientifica com pegada ecológica. Eu não tinha experiência de roteiro de videogame, mas fui estudar, porque roteiro de games é muito diferente de quadrinhos e cinema. É um samba do criolo doido. Desenvolvemos o argumento da história todinha, mas ficou muito grande. Então vamos fazer uma história em quadrinhos, com 32 páginas, como um prólogo do game. O game começa quando termina a revista em quadrinhos. Foi uma forma mais econômica de termos a história completa”.

Game e revista (sem previsão de lançamento) foram feitos nas horas vagas de Milena, do professor Isaac e de dois alunos, sem remuneração alguma – apesar de tratado como uma das pérolas da economia criativa, por ter baixo custo se pensado como investimento inicial em uma empresa, um jogo leva tempo e consome algo próximo de R$20 mil, a depender da qualidade.

Os visitantes da Mostra terão 20min em cada máquina. Nesse tempo, informações sobre o desenvolvimento dos jogos e cursos do IMD serão lançadas para instigar a procura por um dos segmentos mais atrativos da atualidade.

Típico caso de lazer que pode virar profissão, com forte cunho social – basta imaginar mais escolas, como o IFRN de Ceará Mirim, onde existe curso de programador, montadas em outras cidades potiguares e na periferia de Natal.

“Nos jogos digitais nós temos os social games, que são conhecidos pela maioria, como o Angry Birds, Candy Crush, jogados no celular, no tablet e no computador. Tem os educativos e os feitos pelas empresas para treinar funcionários, como o pessoal do recursos humanos. Nesse mercado para empresa o interesse está muito alto, por ajudar na hora de tomar decisões, saber que caminho seguir, só que de forma lúdica”.

MilenaMilena e a economia criativa  

Milena tem mestrado em Cultura Maia no Período Clássico (250-900 dC). Foi bater no Rio Grande do Sul, onde passou dois anos e meio, para entender aquele povo espalhado pela América Central – única civilização das Américas pré-cabralinas e colombianas com língua escrita, nos moldes do Velho Mundo.

Filha de um farmacêutico bioquímico, ela morou mais três anos em São Paulo, no começo dos anos 1980 – era criança ao acompanhar o pai em um doutorado.

“Lá em casa, sempre líamos Disney e os Trapalhões, mas foi com um amigo, em 1988, que conheci a graphic novel X-Men – Conflito de uma raça”.

Era início da adolescência de Milena.

A decisão de colecionar revistas em quadrinhos veio na faculdade.

E dessa experiência e de leituras diversas surgiu uma profunda conhecedora da arte sequencial.

Após a Mostra de Jogos Digitais, ela organizará outra de cinema (curtas-metragens), a terceira edição da HQ Zone (exposição de itens de colecionadores, como bonecos, brinquedos) e mais quatro eventos revelados nos meses seguintes.

Com os jogos digitais incluídos na Lei Rouanet, em 2012, a ‘brincadeira de criança’ é vista, hoje em dia, como arte, negócio e pedagogia.

Possibilidade de ganho real sob viés capitalista ou como ferramenta social.

“Às vezes você vê um jogo de console [o tradicional, com máquina própria ou jogado no computador] e não sabe que a equipe é enorme, com historiadores, diretores de arte, pesquisadores, além de programadores, e eles passam dois, três anos para fazer um jogo. E gastam muita grana. Aqui nós temos muita gente boa que, se tivesse mais investimento, daria em muita coisa boa, para mudar a vida de muita gente”.

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