Garçom, por favor: um porre de poesia!

Ler é como afirmou o poeta argentino Jorge Luís Borges: “uma forma de felicidade!” E, ainda acrescento: um meio de libertação, porque nos proporciona uma nova compreensão da realidade. Embora a situação seja a mesma, a nossa forma de enxergar, de lidar com o problema mudará.  A leitura, portanto, nos conduzirá a novos caminhos, buscar outras alternativas, a nos reinventarmos.  Como dizem os versos de Cecília Meireles: “A vida só é possível reinventada”.

A literatura é transdisciplinar. Envolve vários campos do saber como: filosofia, história, psicanálise, mitologia, o que contribui para a compreensão dos conflitos existenciais, como a busca do amor, lidar com a separação, rejeição, solidão, com escolhas na vida, enfim, nossos conflitos existenciais, para os quais a escola como instituição não nos prepara.

Certa vez, li uma matéria  dizendo que os filósofos queriam clinicar, e de uma forma bem inusitada: os clientes seriam atendidos numa mesinha de bar. Na época, o texto causou grande polêmica Hoje, podemos ver muitos filósofos “clinicando” em consultórios, dando cursos. Um exemplo é a filósofa brasileira Viviane Mosé que enfrentou preconceitos no universo acadêmico, mas seguiu em frente com seu projeto singular. Hoje, é a filósofa predileta de grandes artistas e atende em seu consultório atrizes famosas.

E o interessante é que entre os seus mestres estão os psicanalistas Chaim Katz e o sambista Martinho da Vila. Outro grande exemplo é o do filósofo suíço Alain de Boton, que tem um projeto audacioso, o qual é ministrar cursos para as pessoas lidarem melhor com os conflitos existenciais. Assim, ele indica as leituras de Proust, Baudelaire, entre outros grandes autores. 

Na sociologia, o escritor Zygmunt Bauman defende a literatura como forma de compreensão da condição humana e ataca os “muros da academia” e a alienação dos intelectuais. Para ele, a grande meta é alcançar uma gama de pessoas comuns que lutam para serem cada vez mais humanas num mundo cada vez mais desumano, cujo medo maior é o de serem jogadas no lixo!

Como amante da literatura, tenho vivenciado essas situações na prática. Meu telefone de vez em quando toca e sempre é  um amigo me chamando para bater aquele papo” filosófico-literário”. Nós marcamos um encontro para tomar cerveja, uma cachacinha e conversarmos. Um tempo desses eu e um amigo estávamos atravessados pela angústia. Ambos vivenciávamos a dor da separação. E não deu outra: de repente tínhamos tomado um porre de filosofia, literatura e cerveja.  E ele citando o poeta Thiago Medeiros me perguntou:

– “O que eu faço para parar de me doer? ”

– Gosto muito do poema “Canção de amor às palavras”, de Jeanne Araújo. Talvez seja essa solução para se para de doer:  “Dei para pisar em tudo que me fere:/espinhos, cacos de vidros, /estilete, coroas-de-frade./Só não pisei as palavras/porque me estacaram o sangue.”

– Poema que te pariu, cara! Gostei! Viva a Poesia, amigo!

Já madrugada, pagamos a conta. E na companhia da lua, seguimos para nossas casas cheios de desejos  e solidões.

Outro momento foi com uma turma de amigos. Digamos que foi uma terapia em grupo. E de repente, em nossas mesas estavam João Andrade, Nietsche, Beth Milanez, Ana Carolina, Drummond, Théo Alves, Iara Carvalho e Cefas Carvalho.  A nossa dor pulsava tanto que silenciamos e ficamos a escutar a bela interpretação de Ney Matogrosso: “A tua boca anda oca/ Da minha língua/Da minha língua/ A minha língua anda à míngua/ Sem a tua boca/ Sem a tua boca. ” E em meio à canção, vem Ulisses, personagem do livro “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”, de Clarice Lispector, cuja voz ecoava: “se deve viver apesar de. ”

Em meio à embriaguez, uma amiga bem performática, levanta-se e grita versos de Marina Rabelo: “eu vou rimar cicatriz/com meretriz/pois quando você foi embora/eu fiquei puta/”. Caímos na risada! Eu me levantei e recitei um verso de João Andrade: “O amor me perguntou se eu era feliz, /mostrei-lhe a cicatriz”.

E para finalizar a noitada literária recitamos José de Castro: “por onde passa o poeta/ deixa uma seta/ uma curva, / uma reta/uma encruzilhada,/ onde o coração/decide o rumo/dos seus passos/ E o poeta/afaga os versos/ e reinventa/os descaminhos/ da jornada./Segue em frente/desnudo/inteiramente/sem destino.”

Depois daquele bate papo, sentíamo-nos mais leves, porque a fala cura, a leitura liberta. Foi terapêutico, humano, poético, liberta_dor. Afinal, poucos são os que querem escutar os nossos lamentos, não têm muita importância… Afinal, “a nossa dor não sai no jornal”.

Na despedida, decidimos que iríamos marcar uma reunião para a criação do Clube Literário  e o livro mais cogitado estava sendo “A mesma fome”, de Marize Castro. Erguermos os copos num brinde:  

– “Tim-Tim: a nossa vida é um litro aberto”.

Comentários

Há 7 comentários para esta postagem
  1. Beth Milanez 19 de fevereiro de 2021 11:46

    Gilvânia é Machado afiado cortando fora lascas de tristeza e seus textos, sempre maravilhosos com uma agudeza singular, são verdadeiras vacinas nesta quarentena que nos afasta das risadas presenciais e copos cheios de histórias misturadas com café ou vinho.

  2. Gilvânia Machado 19 de fevereiro de 2021 9:47

    Que maravilha esse feedback de vocês! Os poemas “etílicos” são da melhor safra! rsrs! Já dizia Baudelaire:
    “Embriaga-te!
    Com vinho, poesia, virtude.
    A teu gosto!
    E o nosso Drummond:
    “Meu verso é minha consolação
    Meu verso é minha cachaça
    Todo mundo tem a sua cachaça.

    Tim-tim para vcs! Obrigada pela leitura !

  3. Nic Cardeal 7 de fevereiro de 2021 19:08

    Maravilha! Nesses tempos estranhos, um bom porre de poesia é o melhor antídoto para a tristeza cotidiana! Obrigada!

    • Gilvânia Machado 19 de fevereiro de 2021 13:16

      Obrigada, querida! Sua leitura é um grande presente para mim! E vc ter se embriagado melhor ainda kkk

  4. Luís Carlos Freire 7 de fevereiro de 2021 16:25

    Maravilhoso! Parabéns! Muito lispectoriana, você!

  5. José de Castro 5 de fevereiro de 2021 21:47

    Parabéns pela bela crônica, Gilvânia… Gostei demais do elenco de poetas citados por você. Gosto demais de Iara Carvalho, Théo Alves, Cefas Carvalho, João Andrade, Jeanne Araújo…Da musicalidade de Beth Milanez, para citar apenas os que conheço pessoalmente. E fiquei muito contente em ver trecho de poema do meu livro APENAS PALAVRA citado… Maravilha! Vamos que vamos… Viva a poesia… Um porre mais do que necessário…

  6. Aluísio Azevedo 5 de fevereiro de 2021 17:51

    Uau! Gilvânia está aprimorando a forma de fazer da vida comum uma narrativa literária, criativa, surpreendente, poética. Substantiva e plural, com certeza!

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