O Gargalheiras e a função social da palavra

Por Lívio Oliveira

Atendendo ao honroso convite do pesquisador e escritor Thiago Gonzaga e do meu dileto amigo e mestre – um dos mais talentosos e atuantes membros da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras – Manoel Onofre Júnior, uni-me ao grupo de escritores que no último sábado formou caravana em direção ao Seridó, com o intuito de realizar doação de centenas de quilos de alimentos e muitas garrafas d’água mineral (o que foi fruto de uma bela campanha capitaneada por Thiago, com apoio logístico do também escritor Aluísio Azevedo Júnior) para comunidades carentes da cidade de Acari, vítimas dos efeitos da seca prolongada e do esvaziamento quase que total do açude Gargalheiras, uma das sete maravilhas do Rio Grande do Norte, que historicamente abastece aquela localidade.

Também tivemos a oportunidade de participar de um momento especial na Escola Municipal Major Hortêncio de Brito, onde fizemos, na companhia do Diretor e de professoras, a entrega de livros para a organizada e diversificada biblioteca e para os estudantes que estiveram presentes. Os escritores tiveram a oportunidade de falar por alguns momentos e também houve apresentações musicais. Para mim, o momento mais emocionante foi o da fala de um jovem estudante de nome Geliel, um garoto sertanejo que, com os seus cerca de onze anos, cativou-nos a todos ao demonstrar sua paixão pela leitura e seu desejo forte de continuar lendo e estudando em busca de um lugar melhor ao sol. Sol do qual aquele povo experimenta tanto as maravilhas como os poderes pesarosos.

Naquela dupla entrega de alimentos – para o corpo e para o espírito – pude compreender ainda melhor a importância do papel do intelectual e do escritor e da palavra que dissemina, formando reflexão e opinião e liderando movimentos e apontado direções, firmando sua vontade e seu pensamento, transformando-os em outra espécie de ação também benéfica e produtiva. Pude perceber porque é necessário cumprir à risca aquilo que a canção “Nos Bailes da Vida”, de Milton Nascimento e Fernando Brant preceitua: “Todo artista tem de ir aonde o povo está”.

Evidente que cabe primeiramente às autoridades públicas, aos governantes, a tomada de posições e iniciativas, decisões e ações estratégicas. E as soluções correspondentes. No entanto, cabe-nos alertar e propor – inclusive, com o exemplo dado e mostrado – no sentido de que sejam realizadas as medidas cabíveis para a transformação da sociedade e para que ocorram melhorias efetivas na vida das pessoas, ainda mais diante de situações emergenciais como aquela que testemunhamos “in loco”.

subs1O orgulho e a alegria que experimentamos superaram a tristeza de ver o Gargalheiras quase que completamente seco, com algumas garças branquinhas pontilhando as margens cada vez mais estreitas e minguadas do açude. No entorno, as gigantescas protuberâncias minerais, como que a velarem tristemente aquela imensidão ressequida, até as lágrimas rareando diante de uma realidade tão dura, ocasionada pela fenomenologia da natureza e pelos descuidos e falta de prevenção humana dos que não souberam e talvez ainda não saibam perenizar águas e sonhos.

De qualquer sorte, estivemos ali, vários escritores unidos em torno de uma causa dupla e digna: fornecer o alimento para a sobrevivência física e presentear os jovens estudantes com o alimento espiritual das palavras artísticas, estéticas e éticas; esperando, com muito gosto, que essas últimas, destacadamente, sejam férteis e vinguem, transformando-se em instrumentos futuros para que se desafie e seja vencido o torpor que muitas vezes invade os homens, diante do peculiar tipo de dificuldades que testemunhamos naquela terra valorosa. Um dos amigos escritores usou em sua fala a feliz expressão: “a palavra vai na frente.” E vai mesmo. E esse é o nosso papel: levar adiante a palavra que alimenta.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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