Gastão Cruz: um leitor sobrevivente

Foto: Miguel Manso

Por Susana Moreira Marques
PÚBLICO

Gastão Cruz começou a ler poesia contemporânea portuguesa ao mesmo tempo que a escrevia. Na sua biblioteca está essa intimidade com a mais importante poesia da segunda metade do século XX. “Tive a sorte de ter amigos que admirava e que pude acompanhar e ler à medida que iam fazendo as suas obras”, diz.

Por estes dias, Gastão Cruz lê a correspondência de Arthur Rimbaud (1854-1891), a partir da qual está a escrever uma série de poemas. De África, para onde Rimbaud foi, ainda muito jovem, trabalhar, o poeta francês mandava cartas para a família e os amigos, nas quais descrevia em pormenor as suas viagens e o que viria a ser o período final da sua vida. Por causa de um cancro num joelho, foi amputado a uma perna, e morreu pouco depois, aos 37 anos, mas tinha deixado de escrever muito antes de morrer. E há desde logo esse mistério, para Gastão Cruz: quando e porquê sente um escritor não ter nada mais para dizer?

Pode-se deixar de escrever, mas não de ler; quando se lê, há sempre qualquer coisa mais para acrescentar ao nosso entendimento do mundo – ainda que também a experiência da leitura, com o tempo, mude. Para Gastão Cruz, as leituras são, hoje, uma espécie de diálogo com o dia-a-dia, com o que está a escrever no momento, com o que lhe interessa pesquisar, com o trabalho que faz como um dos directores da revista Relâmpago (a já mais longeva revista de poesia em Portugal, publicada desde 1997, pela Fundação Luís Miguel Nava), com os livros que lhe aparecem em casa porque lhe são enviados, por exemplo, por jovens poetas, e, ele, que já foi um jovem poeta, recebe-os então a todos.

Quando ele era um muito, muito jovem poeta, começando aos 14, 15 anos a escrever sonetos como os de Antero de Quental, tinha um amigo de quem fala como se falasse de Rimbaud, só que Rimbaud escreveu o que não escreveu, deixando muito escrito, e o seu amigo não tinha deixado nada. Esse incumprimento do talento, a noção dessa enorme injustiça, nunca está perdida num homem, como ele, que já perdeu muitos amigos que ainda tinham muito para escrever: por exemplo, Luís Miguel Nava, assassinado aos 37 anos, e que tinha deixado em testamento o pedido de criação de uma fundação e a ajuda de Gastão Cruz para isso.

Talvez seja preciso contar sempre, entre as leituras de uma vida, as não leituras.

Sobre esse amigo, do qual não sabemos e não saberemos o nome, com quem partilhou o que chama “voracidade” pela literatura, a arte, a cultura, enquanto cresciam em Faro, Gastão Cruz escreveu um poema, A leitura, que apareceu em 1963 no livro A Doença. Nele, a leitura aparece como qualquer coisa que nos pode tomar o corpo, como um vírus, uma bactéria, um bicho que se vai alimentar do hospedeiro. Evoca o estado de transe que todos os grandes leitores conhecem da infância e da adolescência, quando nada mais importa do que o universo que temos nas mãos, podendo ser mais real do que a própria realidade, ou, pelo menos, mais essencial.

Faz também pensar em longas férias de Verão e na praia, onde os livros se consomem com sensualidade e uma certa indulgência. Mas o poema, diz Gastão Cruz, é mais literal do que isso – e relata uma história verdadeira que soa quase a um relato de uma imolação pela leitura: “Foi no Verão de 1960 ou 1961. Esse meu amigo teria, creio, o que hoje se chama ‘bipolaridade’ e alternava momentos de depressão com momentos de grande excitação. Um dia, apareceu na praia, em Faro, com vários livros de Fernando Pessoa e leu incessantemente: leu em voz alta, poemas uns atrás dos outros, num estado de exaltação, quase de êxtase. E essa intensidade da leitura dele impressionou-me muito.”

Esse amigo acabou por se suicidar e tinha sido a pessoa com quem tinha feito toda uma descoberta do mundo; de que existiam bibliotecas, pequenas ou grandes, nas casas das pessoas, e que nelas existiam livros e que neles se podiam descobrir poemas, romances, histórias de grandes compositores de música clássica, de pintores e imagens dos seus quadros – tudo o que havia, não só para saber, mas para sentir, podia passar pelas folhas dos livros.

Escreveu, a partir dessa memória do amigo lendo na praia, esse poema em três partes, que termina: “De mais tenta ele / extrair do corpo voz / com que dizer o / fogo todo // De mais ele traz esta / luz de agosto / para ajudar / ao fogo posto // De mais ele canta / de mais ele vê as folhas / Ao livro / sobe a luz do corpo // A ferocidade todo o sangue o corpo / usam na / leitura / demasiado fogo”

Gastão Cruz era outro tipo de leitor, era já um leitor sobrevivente, mas no resto da sua obra vão passando imagens de páginas e uma sugestão de luminiscência, e de calor e de frio, como se os livros fossem objectos vivos.

Sobreviver

“Já me sinto um sobrevivente”, diz. “Tive a sorte de ter amigos que admirava – e que continuo a admirar – e que pude acompanhar e ler à medida que iam fazendo as suas obras, algumas delas fundamentais na história da poesia portuguesa. E depois fui vendo esses amigos desaparecerem.”

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