Gastronomia de Caicó

Há poucos dias o DN publicou matéria minha com o chef Jackson Garrido, poeta perambulante do Centro Histórico. O cara dizia que este Rio Grande carece de um prato típico, mesmo sendo nós “comedores de camarão”, conforme denuncia a etimologia potiguar, produtores de côco e outras frutas tropicais, termos uma costa de mais de 400 quilômetros de praia e uma gama de crustáceos e frutas do mar à disposição, afora a cozinha regional.

Jackson também reclamava que, mesmo os cajus e carambolas (pasmem!), matéria-prima deste Rio Grande, não possuem pratos quentes típicos. No artigo a seguir o leitor poderá conferir o contrário. Caicó está com tudo. E vale ressaltar ainda que o queijo de Caicó, segundo Jackson, foi monopolizado (o leite, matriz produtora do queijo) por uma pequena elite de fazendeiros da região. E nada de ginga-com-tapioca. Se quiser ser típico, que fosse camarão com tapioca.

Pois leio no blog do caicoense Robson Pires a notícia de que a nova revista de bordo das linhas aéreas TAM circulam o mundo todo dando um excelente destaque para a cidade de Caicó através de artigo publicado pela chef Ana Luiza Trajano, que esteve recentemente na cidade. Ela inicia o artigo dizendo que “A pequena Caicó, no Rio Grande do Norte, é um paraíso Goumert a ser descoberto”.

Segue o artigo:

Os franceses têm o vinho de Bordeaux, o sal de Guérande, a Poulett de bresse, o foie grás do Périgord, o presunto de Bayonne a Pimenta de Espelette… Tantos produtos identificados como selo de qualidade de sua appellation d’origine contrôllé! A Itália também valoriza o DNA de sua comida; o queijo de Parma, a mostarda Cremona, o tomate de San Marzano, a mussarela napolitana. Nós aqui no Brasil temos as nossas excelências regionais, nem sempre, porém, reconhecidas, e eu gostaria de começar por Caicó.

Caicó? Vocês hão de perguntar. É Caicó, no Rio Grande do Norte. Eu também não sabia. Foi numa visita a São Luiz do Maranhão que conheci o chef Dantas. Faz tempo que ele e a família são radicados no Maranhão. Mas me falaram com tanto orgulho da culinária de Caicó que fiz as malas e na companhia de Dantas, fui conhecer sua terra Natal. Hospedada por dona Neném, saí para explorar as preciosidades locais. Queijo de coalho, sequilhos, biscoitinhos de queijo, o biscoitinho palito, a raiva (mais um tipo de biscoitinho de lá). Produtos feitos com carinho artesanal – uma delícia. Com a grife Caicó. Reconhecida em todo o Nordeste.

Qualidade com hospitalidade. Caicó se esmera para agradar os que têm água na boca. Almoçamos e jantamos na casa de cozinheiros e cozinheiras de primeira linha. Uma festa fora o apetite.

A Alessandra preparou um banquete de receitas regionais: arroz-de-leite, munguzá, farofa d’água, paçoca de carne de sol, carne-de-sol-assada, umbuzada, filhós de mel e suco de cajarana. Já o chef Sandro, do restaurante Brilhante, enveredou por especialidades autorais. Trouxe à mesa um “caviar de caju”, um “caju metido a besta” e um rondelli de macaxeira com carne de sol.

O Brasil é um lauto cardápio de Caicós pedindo para serem descobertos. Cada um com sua especialidade artesanal e sua história afetiva. Sempre deixando no paladar do viajante o gostinho do quero mais e a vontade de voltar algum dia. A Caicó eu sonho voltar agora em julho, para a Festa de Santana. Eles já adoram uma festa e a de Santana é a mais animada. Dizem na cidade que Caicó é “muita festa, pouca água e muita festa”. Eu meto a minha colher: e muita comida boa.

Por: Ana Maria Trajano – Chef do restaurante Brasil a Gosto, de São Paulo, um dos melhores de gastronomia brasileira. Já publicou um livro com o mesmo nome, que tem poesias e fotografias inspiradas por suas viagens pelo país. É consultora do novo cardápio da TAM, o Brasil a Bordo.

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

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