Gênio investigado

Livros, mulheres, fama, contradições – uma recente biografia de Charles Dickens, assinada por Michael Slater, dialoga com textos anteriores na tentativa de compreender o escritor, que morreu há 140 anos

Por Robert Gottlieb
O Estado de S.Paulo

THE NEW YORK REVIEW OF BOOKS

Existem autores cujas vidas e personalidades são de tamanha grandeza, tamanho fascínio, que é impossível escrever uma biografia monótona a seu respeito. Um deles é Charles Dickens. Sua turbulenta vida emocional, as violentas contradições de sua natureza e a incrível história de sua ascensão instantânea ao mais elevado patamar da fama literária e da popularidade podem ser recontadas infinitas vezes, e de fato foram relatadas num sem-número de obras. Dickens nasceu em 1812 e morreu em 1870, produzindo 15 romances. Foi certamente o homem mais conhecido da Inglaterra em meados do século 19. Sua popularidade e influência chegavam também até os EUA, França, Rússia. Quando morreu, a comoção foi universal.

Meses após a morte de Dickens, as primeiras biografias começaram a aparecer e, em 1871, foi publicado o primeiro volume daquela que seria a mais influente das obras da indústria biográfica de Dickens: The Life of Charles Dickens, de John Forster, o mais íntimo e mais digno de confiança dentre os amigos do autor. Forster contou ao mundo muito daquilo de que não sabíamos, em especial a história de como, aos 12 anos, Dickens foi trabalhar na degradante (para o autor) fábrica de graxa para sapatos, condenado a tal emprego pela situação de quase miséria em que vivia sua família. Em seu livro, Forster também publicou diversas cartas particulares escritas por Dickens que acompanham sua vida e, até certo ponto, revelam seus sentimentos. Com a perspectiva diferenciada de testemunha ocular e sua perspicaz interpretação da natureza de Dickens, a obra de Forster é um documento essencial para todos os biógrafos do escritor que se seguiram, entre eles Michael Slater, autor do recente Charles Dickens (Yale Press).

O Dickens que o mundo pensava conhecer era um defensor de todas as virtudes vitorianas, mesmo que seus romances expusessem a violência, hipocrisia, ganância e crueldade do período. Ainda assim, sua filha Katey escreveu a George Bernard Shaw: “Se o senhor pudesse fazer com que o público compreendesse que meu pai não era um homem alegre e jocoso que caminhava pelo mundo com uma porção de pudim de ameixa e uma tigela de ponche nas mãos, ficaria muito agradecida.” Num certo sentido, a história das biografias de Dickens tem sido uma tentativa cada vez mais intensa de se fazer justamente o que a filha pedira.

Primeiro tivemos a numerosa leva de memórias escritas por aqueles que o conheceram. E foram muitas as interpretações críticas mais agudas, como por exemplo as de George Gissing e G. K. Chesterton, além da variedade de comentários públicos e particulares feitos pelo próprio Shaw. Quanto às biografias posteriores à guerra, foi em 1952 que Edgar Johnson publicou os dois volumes de seu Charles Dickens: His Tragedy and Triumph (Simon & Schuster), recebido pelos críticos como primeira versão definitiva da vida do autor. O livro de Johnson ainda é uma leitura interessante. Seu defeito mais grave ? comentado por Slater ? é sua parcialidade em favor de Dickens na questão do relacionamento com Catherine, sua mulher.

Desarranjo. O tratamento dispensado por Dickens a Catherine pode ser visto hoje como falha imperdoável em seu caráter, sendo também um indício do poderoso desarranjo psíquico que o acometeu na fase intermediária da vida. Os dois se casaram ainda jovens, depois de o autor cortejar, sem sucesso, a bela e sedutora Maria Beadnell, que o atraiu e depois o recusou, demonstrando obviamente não ter se encantado profundamente com o jovem de boa aparência que começava a encontrar seu espaço como repórter da corte, mas sem perspectivas reais.

Hoje, é fácil perceber que o amor deles era uma paixão juvenil, mas o sentimento era intenso e levou a grandes humilhações. E o autor logo se voltou para Catherine Hogarth, jovem vinda de uma família de certa distinção. Ela era plácida, admiradora do marido, e a atração que Dickens sentia por ela nada tinha de ardente. Após a turbulência emocional vivida com Maria, o que ele procurava era uma cônjuge em vez de uma amante; formar a própria família e se firmar num relacionamento estável. A triste verdade é que a modesta inteligência e a timidez de Catherine significaram que ela não pôde partilhar com ele a vida de autor ou sua vida interior. Conforme ganhava notoriedade, Dickens começou a expressar sua insatisfação em cartas a Forster. Sua mais profunda infelicidade estava na crescente sensação de estar perdendo aquilo que a vida teria de mais importante: a realização num relacionamento com uma mulher.

A história de Dickens com Catherine é apenas um dos relacionamentos com mulheres que definem seu histórico particular e sua trajetória emocional. Todas as crianças abandonadas ou rejeitadas da ficção de Dickens ? de Oliver Twist e Pequena Nell a Florence Dombey e David Copperfield, passando por Jo, de Casa Soturna, e Pip e Estella, de Grandes Esperanças ? são claramente centrais para a percepção que o autor tinha de si. Seus pais, mortos ou dotados de um narcisismo destrutivo, são projeções implacáveis da arquitetura emocional do próprio autor. Por outro lado, as filhas e irmãs carinhosas, igualmente onipresentes, e as garotas quase indistintas que são objeto do amor em obras como Nicholas Nickleby e Barnaby Rudge não passam de fantasias sem vida. É fácil identificar seu principal protótipo. Pouco depois do casamento e da mudança para uma nova residência, uma das irmãs mais novas de Catherine, Mary, veio visitá-los, e acabou morando com o casal. Ela ajudava com as tarefas do lar, ajudava com os bebês e consistia numa figura idealizada da feminilidade virginal. Em seu livro, Slater mostra que Mary foi especialmente brilhante e encantadora, mas, para Dickens, ela era muito mais do que isso. Esta figura idealizada se projeta em boa parte de suas obras. Ele disse a Forster que, enquanto escrevia Oliver Twist, evocava a lembrança de Mary para manter as emoções “num estado de elevação”. O que Peter Ackroyd chama em seu Dickens (HarperCollins, 1990) de “estranha concatenação de fascínio, obsessão e reprovação da sexualidade” o perseguiria por toda a vida, e também assombraria sua ficção.

Dentre as mulheres de Dickens, a mais amada foi a atriz Ellen Ternan. Tinha 18 anos, era bonita, inteligente. A natureza do relacionamento entre os dois é o aspecto mais questionado da vida particular de Dickens. Apenas no século 20 que a história de Ellen veio à tona por inteiro. Logo foi aceito que durante os 13 anos que antecederam a morte do autor, os dois mantiveram um relacionamento íntimo. Entretanto, ainda se discute se o relacionamento teria se tornado sexual. Fred Kaplan, em Dickens: A Biography (Morrow, 1988), argumenta que, “depois de manter relações sexuais durante a maior parte de sua vida, parece improvável que ele renunciasse a elas quando se viu profundamente apaixonado por uma jovem atraente. Ele não tinha impulsos ascéticos. Suas preocupações eram terrenas, e os valores em que ele acreditava e sua própria personalidade afirmavam a naturalidade do sexo entre amantes”. Mas Ackroyd insiste na crença de que o relacionamento entre os dois jamais se tornou sexual.

Carreira. Concentrar-se no relacionamento de Dickens com as mulheres e em sua tumultuada vida interior é apenas uma das muitas maneiras possíveis de se analisar tanto a vida quanto a obra do autor. Não é necessário dizer que há muitas outras formas ? e uma delas é voltar a atenção para o trabalho que desempenhou como editor de duas revistas de grande sucesso, Household Words e All the Year Round. Ele era responsável por tudo, mantendo intensa correspondência com os escritores, aperfeiçoando o texto de repórteres, planejando todos os aspectos de edição. A tarefa de editor era para ele uma segunda carreira em tempo integral. É sobre este último e menos compreendido aspecto da vida profissional de Dickens que Michael Slater faz sua contribuição mais original. Até certo ponto, ele dá vida ao sofrimento da criança, ao jovem precoce que seduzia a todos, ao dândi, ao marido e pai desapontado, ao amigo terno, ao inimigo implacável, ao ardente reformista desprovido de filosofia política e ao fiel sincero que não tinha religião pessoal. Ele também compreende a genialidade da obra do autor e a transmite a nós. Entretanto, a questão mais importante é se ele foi capaz de “entender” Dickens. Mas esta é uma pergunta injusta e irreal. Afinal, quem poderia entendê-lo?

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

ROBERT GOTTLIEB FOI EDITOR-CHEFE DA SIMON & SCHUSTER E DA REVISTA NEW YORKER. É BIÓGRAFO DE GEORGE BALANCHINE E EDITOU AS ANTOLOGIAS READING DANCE E READING JAZZ; É CRÍTICO DE DANÇA DO NEW YORK OBSERVER

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