Gente boa

Por J. P. Cuenca
FOLHA DE SÃO PAULO

Estou fora do país e ontem tentei (mais uma vez) explicar o que está acontecendo no Rio de Janeiro (mais uma vez) a um grupo de europeus. Por um lado é fácil. Eles estão bastante familiarizados com conceitos antropológicos como etnocentrismo e racismo, bússolas de comportamento no dia a dia das grandes cidades brasileiras. Mais complicado é explicar como o nosso fascismo tropical de cada dia produz um festival cada vez mais naturalizado de desrespeito, homicídio e opressão. Afinal, estamos tão acostumados ao assassinato de jovens negros em autos de resistência quanto a beber cerveja de milho. E os nossos refugiados, índios assassinados ou ameaçados de morte por ruralistas tão bem representados neste ou em qualquer governo, não costumam merecer nem um postzinho comovido no Facebook. Resolvi falar sobre imprensa.

Alguns brancos de classe média acordaram para o problema quando foram chamados de vândalos enquanto apanhavam pra valer da polícia em 2013. Mas a forma como os jornais e noticiários de TV brasileiros manipulam a realidade através de seus conhecidos dois pesos e duas medidas tem historicamente consequências bastante mais dolorosas para quem não é branco e tampouco chegou à classe média. Imagine a manchete do jornal “O Globo” caso um PM “se assustasse” com uma criança branca correndo e a matasse com um tiro numa esquina de Ipanema? A diferença da cobertura e do seu tom é do tamanho da responsabilidade que esta mesma imprensa tem sobre o crime acontecido na favela. Ao naturalizá-lo, vira cúmplice.

Recentemente, nota-se atenção maior a esse tipo de caso, mas ainda é raro que a morte de uma criança por um balaço da PM em Manguinhos, na Maré ou no Caju emplaque manchete ou caso a ser acompanhado. Quando acontece, é principalmente pelo engarrafamento. Enquanto participei de um programa na GloboNews, perdi a conta de quantas vezes precisei lembrar o nome da vítima e a causa do protesto depois de uma entrada ao vivo mostrando imagens de um engarrafamento e de uma passeata filmadas desde um helicóptero. Porque, óbvio, a distância da notícia não era apenas de ponto de vista. O repórter tampouco se dignava a dar o nome da vítima. É claro: uma criança negra e favelada morrer com um tiro na cabeça não é notícia no Brasil. Ou, pelo menos, não mais que um congestionamento no caminho para o aeroporto.

A cobertura apologética da imprensa carioca sobre o início da ocupação das favelas pelas Unidades de Polícia Pacificadora e pelo Exército Brasileiro tiveram por parte do grande jornal carioca o mesmo tom dos releases sobre a guerra do Iraque escritos pelos redatores do Donald Rumsfeld. Dentro das suas fronteiras, no ar-condicionado do aquário, foi fácil e prático ignorar os direitos civis negados aos favelados, negros e pobres desaparecidos ou assassinados pelas forças do Estado transformando-os em “homo sacer” contemporâneos. Ao longo de um período de 10 anos (2005-2014) foram registrados no Estado do Rio de Janeiro 8.466 casos de homicídio decorrentes de intervenção policial. Mais de dois por dia. Contem quantos viraram notícia. Através desse silêncio, a imprensa ratifica a marginalização dessas comunidades e o terrorismo de Estado.

A estrutura notoriamente corrupta que desaparece com notícias e faz coisas deixarem de acontecer é bastante mais nociva que o sugerido por militantes de esquerda, perdidos numa ilusória dicotomia partidária. O que não se noticia –e como– é bastante mais importante que a última do Aécio Neves.

Segundo a coluna Gente Boa do jornal “O Globo” de ontem, “a previsão para o fim de semana é de arrastões generalizados, com uma guerra declarada pelas redes sociais entre bandidos e justiceiros.” Aos habitantes do Estado Independente da Bossa Nova, delimitado entre o túnel Rebouças e a av. Niemeyer (obrigado, Gabriel Mitsu), eu sugeriria boas-vindas e tentativa de diálogo com os exilados que conseguirem furar o bloqueio dos ônibus e as prisões sem flagrante já planejadas para o próximo domingo. Um bom começo de conversa seria perguntar quantos familiares ou amigos de infância eles já perderam com uma bala paga pelos seus impostos.

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