Georges Bernanos

Título original: Livro narra período em que o escritor francês Bernanos morou no Brasil

Por Marco Rodrigo Almeida
FOLHA DE SÃO PAULO
ENVIADO ESPECIAL A BARBACENA (MG)

Já faz parte do folclore de Barbacena o francês alto, impetuoso, de olhos azuis fuziladores, que cruzava as ruas a cavalo. Ele, a mulher e seis filhos habitavam uma fazenda nos arredores da cidade mineira nos anos 1940.

Não se tratava de uma família qualquer. O imigrante que tanto intrigava a população barbacenense era Georges Bernanos (1888-1948), um dos grandes escritores franceses do século 20. Por sete anos, entre 1938 e 1945, ele viveu no Brasil. O crítico literário francês Sébastien Lapaque descreve o período como uma intensa “aventura política, literária e espiritual”.

Lapaque veio ao Brasil no começo dos anos 2000 para investigar a passagem de Bernanos pelo país. A pesquisa é narrada no livro “Sob o Sol do Exílio”, que a editora É Realizações lança agora.

PÉRIPLO

Desiludido com os rumos da Europa às véspera da Segunda Guerra, Bernanos resolveu começar uma nova vida na América do Sul. “A tripla corrupção nazista, fascista e marxista não tinha quase nada poupado daquilo que tinha aprendido a respeitar e amar”, queixava-se.

Aportou no Rio em setembro de 1938. Tinha então 50 anos. Já era o autor consagrado de “Sob o Sol de Satã” (1926) e “Diário de um Pároco de Aldeia” (1936), romances densos sobre a decadência dos valores e a luta espiritual do bem contra o mal.

Bernanos chegou ao Brasil com dois objetivos curiosos: criar gado e fundar uma colônia francesa. O projeto o levou a um périplo pelo país: Itaipava (RJ), Juiz de Fora (MG), Vassouras (RJ) e Pirapora (MG), onde concluiu o livro “Senhor Ouine”.

Mas foi em Barbacena (MG) que encontrou seu lar no Brasil. Por indicação do amigo Virgílio de Mello Franco, o escritor foi visitar uma fazenda na cidade. Bernanos não gostou da casa, se preparava para ir embora quando soube o nome do lugar, Cruz das Almas. Foi tentação forte demais para um católico fervoroso.

Viveu com a família na propriedade de 450 mil m² de meados de 1940 até 1945, quando voltou para a França. “Foi Barbacena que pôs o imenso país ao alcance e à medida de minha razão e meu coração”, declarou.

“Minas Gerais era um pouco a imagem de Bernanos: muito católica, impressionante e ‘atormentada'”, comenta Gilles Bernanos, neto e administrador da obra do avô.

Hoje a fazenda Cruz das Almas é limitada por um bairro popular na periferia de Barbacena.

Da propriedade original restaram cerca de 2.000 m², onde está instalado o Museu Georges Bernanos desde 1968. A casa principal ainda preserva a estrutura original. Livros, móveis, a máquina de escrever, fotografias e documentos do escritor estão espalhados por oito cômodos.

A austera casa está bastante deteriorada. Há buracos no telhado, forro e assoalho. Num dos quartos com o teto danificado, sacos de plástico protegem os documentos da mira dos pombos. A Prefeitura de Barbacena e o Ministério Público estadual estão elaborando um projeto de recuperação do imóvel, orçado inicialmente em R$ 80 mil.

A preservação do acervo de Bernanos deve-se em grande parte a Nelly Sykora. Essa simpática senhora egípcia, hoje prestes a completar 97 anos, mudou-se com o marido, um militar austríaco, para Barbacena no começo dos anos 1950 e morou por sete anos em Cruz das Almas.

Nelly e o marido, dois dos principais incentivadores da criação do museu, encontraram a casa repleta de objetos deixados por Bernanos. Curiosamente, ela não tem muito apreço pelo escritor.

“Pelos textos e cartas que deixou na casa era possível ter um perfil dele. Definitivamente, não era o meu tipo”, contou Nelly, que hoje mora no Rio. “Ele criticava todo mundo, diziam que era muito arrogante. Também detestei os romances que escreveu. Era só religião, religião, religião.”

COLÉRICO

Não faltam controvérsias na vida de Bernanos. “Sou um escritor absolutamente livre que pretende guardar sua independência”, costumava dizer. Acabou incompreendido por todos os lados. A Igreja Católica o criticou por enxergar em sua fé uma “confiança infundada concedida aos ‘meios sobrenaturais'”.

Monarquista convicto, participou na juventude do movimento de extrema direita Ação Francesa, do qual foi expulso após atritos com o líder do grupo, Charles Maurras. Dizia não suportar os conservadores, mas tampouco se alinhou aos partidos de esquerda. Sem distinção, dedicou ensaios virulentos a ambos.

No trato pessoal, Bernanos era imprevisível. Seus ataques de cólera eram famosos em Barbacena. Paulo Mendes Campos narrou um caso: Bernanos não titubeou em acertar bengaladas em um rapaz que o chamara de nazista.

As bengalas, consequência de um ferimento na Primeira Guerra, e o cavalo Osvaldo, presente de Osvaldo Aranha, viraram símbolos de Bernanos na região.

Quase diariamente o “seu Jorge francês”, como era conhecido, cavalgava até o antigo Café Colonial, no centro de Barbacena. Entre uma conversa e outra e, dizem, uns bons copos de pinga, elaborou muitos de seus célebres ensaios engajados na luta contra o nazismo.

STEFAN ZWEIG

O período em Barbacena também representou a culminância de uma transformação. Em um livro de 1931, o escritor expressou opiniões racistas contra os judeus. A partir da escalada antissemita de Adolf Hitler, no entanto, Bernanos tomou outra postura.

“Nenhum desses que me deram a honra de ler podem acreditar que estou associado à repulsiva propaganda antissemita”, protestou.

“Fugindo da Europa e tornando-se ele mesmo um pária, Bernanos estava aberto para uma nova compreensão do judaísmo”, argumenta o pesquisador Lapaque. Prova disso, diz, foi o encontro entre Bernanos e Stefan Zweig em Cruz das Almas em 1942, dias antes do judeu austríaco -que também se exilou no Brasil- cometer suicídio.

Finda a guerra, Bernanos, uma espécie de herói da resistência francesa, foi convidado pelo general Charles de Gaulle a voltar para França. Muito a contragosto, acatou o pedido, mas, fiel a si mesmo, não aceitou nenhum cargo oficial. Morreu em 1948, de câncer. Em seus últimos dias falou muito do Brasil.

O sonho da colônia francesa não vingou (a criação de gado tampouco), mas não foi um fracasso completo: há descendentes de Bernanos espalhados por Mato Grosso do Sul, Minas e São Paulo.

SOB O SOL DO EXÍLIO
AUTOR Sébastien Lapaque
TRADUÇÃO Pablo Simpson
EDITORA É Realizações
QUANTO R$ 39,90 (150 págs.)

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