Gilbertianas

O escritor Gilberto Freyre vai ser homenageado na próxima Flip. Nesse breve ensaio comentamos a força que o erotismo tem na obra gilbertiana e a relação do escritor com as ditaduras.

1- Gilberto Freyre e as Ditaduras

O escritor de Sobrrados e Mocambos e Assombrações no Recife Velho foi um grande interprete do Brasil. Escreveu alguns dos maiores livros da cultura Brasileira. Era um homem extremamente vaidoso. Vaidoso por ser um grande escritor. Ou escritor porque vaidoso. Seu biógrafo Edson Nery também é um homem vaidoso. Usa perfume francês, gravata borboleta e atua com se fora um lorde Inglês. Gilberto Freyre, no prefácio do livro Minha Formação do Joaquim Nabuco, comenta sobre o caráter apolínio e narcisista do escritor pernambucano também grande camonista. Nesse janeiro próximo comemora-se o centenário da morte do grande abolicionista Joaquim Nabuco. São grandes e vaidosos escritores que muitas vezes vêem além do que conseguimos vislumbrar e sentir.

Gilberto Freyre teve uma relação cúmplice com as forças armadas, para ele, “Uma força suprapartidária na vida pública Brasileira” (artigo em Anexo, publicado em O Cruzeiro de 19 de Setembro de 1964, ano que começou a terrível ditadura militar). Elogia ao final do artigo líderes como Humberto Castello Branco, Kruel, Mourão, Justino Alves, Costa e Silva e Francisco Mello.

O escritor Gilberto Freyre vai ser homenageado na próxima Flip. Nabuco merece um grande centenário e Edson – espero, possa produzir ainda muito mais numa profícua e bela carreira literária. Alguns intelectuais são assim mesmo, vaidosos. Muitas vezes dizem coisas que não gostamos. Foi assim com Gilberto no seu elogio de um regime de exceção.

“… em momentos de agudo desajustamento intranacional ou interpatidário – em 1889, em 1930. em 1932, em 45, em 54- e para sobrepor aos interesses facciosos, em conflito ou em choque extremado, o interesse ou a conveniência nacional”, defende Gilberto ditaduras que para mim são assombrações.

2- Gilberto ErotiKus

A presença do erotismo na obra gilbertiana é estruturante de uma semântica da raça. Uma suruba que é uma amálgama da nossa identidade Da miscigenação que formou essa civilização nos trópicos. Abaixo do equador tudo pode. Dessa mistura de raças Darcy Ribeiro vislumbrou uma grande civilização. Macunaíma brinca com a cunhada. Minha amiga de gangorra com o portuga. Os santos mais populares no Brasil são os casamenteiros Santo Antonio, São Gonçalo e São João.

Os negros e índios possuíam um pênis menor que o branco europeu, escreve Gilberto em Sobrados e Mocambos. Os índios precisariam de artifícios para suprir essa falta. A sexualidade que prevarica é a sexualidade

kitsch. Sexo kitsch orgasmo vicário, fissura priápica, continua teorizando Gilberto com base nos relatos dos visitantes e no escritor Havelock Ellis. No livro “Alhos e Bugalhos” saído a lume em 1978 Gilberto afirma que os escravos que se afoitaram a fecundar sinhás brancas, em uniões que de acordo com as teses apresentadas nos livros Casa- Grande e Sobrados e Mocambos resultaram de vitórias do amor ou do sexo sobre obstáculos de várias espécies sociais. Ou seja, o esperma teria vencido os ódios de classes, consequentemente seria impossível aplicar de maneira rígida o esquema marxista de lutas de classes no Brasil, onde houve uma rendição ao sexo metarracial (em Helena Bocayuva- Erotismo à brasileira).

Quando o livro Casa-Grande & Senzala foi lançado em 1933 houve quem o considerasse imundamente obsceno; ou extremamente sexy, pornográfico, até; ou imoral ao mesmo tempo que anti-religioso e mesmo antibrasileiro. Obra de alguém desvairado pela obsessão do sexo. História social? , perguntou austero crítico, professor da então pudica Universidade de Havard. E respondia, ele próprio …” Não! É sim uma história sexual” ( Freyre G. Alhos & Bugalhos 1978)

Para casar mulher branca e para pecar mulher negra. Freyre confessa preferências eróticas endogâmicas na sua predileção pelas mulheres brancas. O moreno é a cor do pecado, da transgressão e do exotismo, enquanto o branco é a cor da vida doméstica e da existência protegida da família.

“Foram os corpos das negras que constituíram a arquitetura moral do

patriarcalismo brasileiro…” As mulheres intelectualizadas eram poucas; Nísia Floresta surgiu – com exceção escandalosa. Verdadeira machona entre as sinhazinhas dengosa do meado do século XIX. (G. Freyre).

Gilberto nunca conclui e pratica uma sociologia impressionista que seria uma ideologia de Apipucos – e não ciência; comenta o seu xará Gilberto Vasconcellos que lhe dedica um belo livro. Gilberto é para ler curtindo! Roland Barthes e outros grandes escritores elogiaram. Gilberto foi, sim, um grande e original pensador da cultura brasileira. Leu tudo. Pesquisou em jornais, arquivos e outras fontes primárias.

Sexo é vida.

3- Gilbertianas

“ a bengala de GF é imaginada tal um bastão de ébano com um cabo de Limoges, como um símbolo de autoridade e comando no estilo de Brummel” Cascudo

Gilberto Freyre foi um conservador radical respeitoso de uma tradição que tinha no leito e redes das mucamas da casa grande o seu leitmotiv.

Do oligarca da república velha o governador autoritário Estácio Coimbra foi oficial de Gabinete e ganhou muito dinheiro. Estácio pretendia fazer de Gilberto seu sucessor quando a revolução de 30 os deportaram recebendo abrigo em Portugal. Salazar estava lá.

Gilberto se prepara para escrever seu maior livro Casa Grande & Senzala publicado em 1933.

Movido por aquilo que o antropólogo Darcy Ribeiro chamou de “Tara Direitista “, Freyre acusou o reitor da Universidade de Recife de conivente com a propaganda comunista e pediu sua renúncia ao cargo. Tinha exigido antes, 1963, o afastamento de supostos esquerdistas da SUDENE (Roberto Ventura)

Foi conivente com a política colonialista da matriz em nome do “luso- tropicalismo”.

Pela cultura, tudo. Gilberto foi um grande escritor e não lê-lo foi um erro de gerações.

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