Goleiro, um ser maldito e alado

Por Jarbas Martins

Num desses primeiros jogos da Copa da África do Sul, o da seleção da Inglaterra contra a dos Estados Unidos, assistimos pela televisão uma cena, no mínimo, trágico-cômica. Refiro-me ao frangaço que o goleiro inglês Robert Green engoliu, num chute fraquinho e despretensioso de Dempsey, da seleção do grande irmão do norte. Cena que entrará , século XXI a dentro, como uma quase tragédia, atenuada pela atuação medíocre do time inglês.E pela estrela de Wayne Rooney, mais apagada que as fogueiras de São João de hoje em dia. O goleiro é um personagem ainda pouco tratado, do ponto de vista da tragicidade, por comentaristas esportivos, historiadores e críticos literários. Claro que há exceções na específica área da literatura esportiva, devendo ser citados aqui nomes como Mário Filho, Nelson Rodrigues, Armando Nogueira, Juca Kfouri, com belas e breves incursões pelo tema. Confesso, no entanto, as minhas limitações nesse campo, e pretendo ler mais as inteligentes e bem escritas crônicas de Alex Medeiros, um craque disfarçado em escritor e jornalista.Mas voltemos à vaca-fria, como diria um tio-avô. O goleiro é o bode expiatório desse grande espetáculo solar e noturno, que é o futebol. Vejam só: a sina do goleiro é sofrer na carne (e quantas vezes) a penalidade por uma falta que não cometeu. E quando toma um frango, surgido inesperadamente de um chute de neném ? Quem ouvirá Green, que ousou dividr sua culpa com o meio-campista Lampard ? Lembremos aqui, mais uma vez, a trágica história protagonizada por Barbosa- tido pela maioria dos torcedores, e até comentaristas, como o único responsável pela derrota da seleção brasileira, em pleno Maracanã, no ano santo de l950. Ninguém quis ouvir Barbosa nem atenuantes como: a tragédia, na vida de Barbosa, só aconteceu porque a tecnologia era nenhuma; não havia imagens televisivas de alta definição,nem câmeras capazes de registrar os esgares mínimos da alma, só parcas e precárias imagens cinematográficas da era paleolítica.Além do mais, televisão não convence mesmo: muitos não acreditam que o homem pisou na lua.E mem adiantou dividir a culpa com Bigode ou Juvenal. Mas deixemos de lado Barbosa, que sua tragédia já virou um ótimo curta do cineasta Jorge Furtado. Pode o goleiro, no entanto, ter seus segundos de glória. Lembro-me bem das performances estilísticas de Miguel de Lima, um dos grandes goleiros da história do Vasco da Gama, que tive o raro prazer de ver jogar, no Juvenal Lamartine, e bem atrás da trave.Vindo do Cruzeiro de Macaíba, jogou nos meados dos anos cinquenta, inicialmente no extinto Santa Cruz de Natal, partindo daqui para as culminâncias da futebol carioca.Meu aguçado olhar guardou, em minhas retentivas infantis, o elegante estilo de Miguel, as jogadas que impunham, à época, qualidades a um goleiro, como a que se chama ponte nos dias de hoje: os goleiros se esticando como pulo de gato ou vôo de passarinho para um ângulo da trave.E voltando à história nada exemplar de Barbosa: o goleiro é, antes de tudo, um amaldiçoado. Ao se tornar recluso e deprimido, após a Copa de 50, até o término da sua vida, Barbosa parecia querer fugir da própria máscara que para si fabricara: a de goleiro.

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