Gombrowicz diante dos poetas

Por José Castello
A LITERATURA NA POLTRONA

Por que aprecio um livro? Por que rejeito outro livro? A leitura é uma experiência enigmática: nem sempre conseguimos argumentos para sustentar, ou explicar, o que sentimos na travessia de uma narrativa, ou de um poema. Como explicar nossa empatia, ou, ao contrário, nosso desprezo? Nós sentimos e isso deveria bastar _ mas nunca basta. O que não significa que os pensamentos não estejam ali, a interrogar os sentimentos _ que o estrago, ou a alegria, não estejam feitos. Por que amamos hoje um livro que odiamos no passado? Por que amaremos no futuro um livro que hoje desprezamos? Que domínio temos, afinal, sobre nossas leituras?

Essas perguntas me agitam durante a leitura de um pequeno trecho dos preciosos diários de Witold Gombrowicz – FOTO (1904-1969) – o autor do belo “Pornografia”. Em uma quarta-feira do ano de 1953, o escritor polonês se interroga: “Surgem umas perguntas desagradáveis do tipo: em que medida a poesia que escrevo é convencional, e em que medida é verdadeiramente viva? Até que ponto mentem os que me adoram e até que ponto minto eu mesmo me adorando como poeta?” Interroga-se a respeito da verdade. Mas como situar a verdade em um universo comandado pela ficção?

Avanço lado a lado com Gombrowicz: um poeta nunca sabe ao certo onde está. Embora agradecido, ou ao contrário enfurecido, ele não deve se embriagar com os elogios, ou se enraivecer com as críticas. São visões externas, que o atingem pelas costas, mas dificilmente o encaram. Dificilmente entregam todo o jogo. Não que o leitor seja mentiroso, ou traiçoeiro: mas também o leitor _ assim como o escritor, em sua embriaguez diante das palavras _ lê engolfado em emoções que, em grande parte, ele não controla. Lê e se perturba. Lê e, quanto mais lê, mais perde o controle de si.

Chega Gombrowicz ao coração das coisas: “Sei que o poeta suportará tudo e não se sentirá ofendido por nada com uma condição: que admita para si mesmo que é um poeta”. Um poeta (um escritor) precisa sustentar suas palavras. Se não as sustenta, ninguém o fará por ele. Pode ter leitores apaixonados, ou ao contrário leitores enfurecidos, mas não terá a si mesmo. E um escritor (um poeta) conta apenas consigo mesmo, e com mais ninguém.

Mais de meio século depois, vivemos uma época na qual a figura do escritor se encontra estilhaçada em uma profusão de imagens. O escritor se transformou em um personagem. As palavras, de certo modo, se vingaram. Posso pensar: Gombrowicz a odiaria. Pensa ele, com coragem, no leitor e nos vícios inconscientes que o atingem _ inclusive a ele mesmo, Witold Gombrowicz, leitor apaixonado também. Escreve: “Às vezes ocorre que admiramos porque nos acostumamos a admirar e também porque não queremos estragar nossa festa. Às vezes, admiramos por delicadeza, para não causar um desgosto. Por isso aconselho: golpeemos com força os poetas para ver se eles caem”. Ou, ao contrário, para ver se são capazes de resistir a nossos trancos. Em outras palavras: para ver se, mesmo sem saberem onde estão, sabem verdadeiramente quem são.

Ao fim de suas anotações, Gombrowicz critica os leitores ingênuos, incluindo a si mesmo. Diz: “Estúpidos! Por que permitis que a história lhes imponha os poetas? São vocês mesmos que devem criá-los, a eles e à história”. Um leitor _ como um escritor _ não deve ter medo de fazer escolhas. Se aprecia um livro, deve sustentar esse sentimento. Mas, caso o despreze, precisa ser capaz de sustentar também. Lembra-nos o escritor polonês que é próprio dos poetas resistir às tempestades, permanecer de pé e perseverar em sua escrita. Aquele que desiste por causa de um tombo poeta não é. Se persevera, pode ser odiado, mas continuará a saber quem é. Continuará a merecer esse nome.

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Lívio Oliveira
    Lívio Oliveira 14 de Abril de 2012 7:41

    Para ler como um mantra.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP