Gostar de Ler – I

Sempre me volta à lembrança uma coleção de textos curtos publicada pela Editora Ática e que me agradava profundamente na adolescência. Eu a lia com avidez e enorme prazer. Chamava-se “Para gostar de ler” e continha dezenas de textos saborosos (crônicas, contos e poemas) de gente do quilate de Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Rachel de Queiroz, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, dentre outros vários nomes consagrados e fortemente significativos das letras brasileiras. Era um deleite, uma viagem maravilhosa entre as belezas que somente a palavra contém. E é por isso que guardo na memória e no afeto os instantes que passava agarrado àqueles livrinhos mágicos. Compartilho agora com vocês, diletos leitores, um pouco dessas memórias e interesses atualizados em torno das leituras.

Não sei se aquela coleção vem sendo reeditada ao longo dos anos ou se teria sofrido algumas adaptações durante esse tempo. Mas sei que isso deveria, sim, ocorrer, pelo altíssimo valor pedagógico e literário-artístico que aquelas reuniões de textos contêm. Afirmo, sem medo de errar, que aqueles livros me ajudaram muito no meu processo de formação educacional e no meu gosto – e até vocação hoje confirmada, quero acreditar – pela literatura. A sua fórmula eleita é magistral, um exemplo de sucesso e prestígio no meio literário. Trata-se de uma coletânea de textos rápidos e que, pela qualidade dos autores, mostra claramente ao leitor – principalmente ao leitor jovem e iniciante – o quanto pode ser prazerosa e motivadora a tarefa e a aventura de se entregar às palavras escritas e a um livro e ao conteúdo mágico que nele se insere. O livro é mesmo essa espécie de mundo particularizado, enfeixado entre capas e páginas de um artefato compacto, simples, mas poderoso. O livro transforma, sempre.

E hoje não falo somente dos livros impressos, os já clássicos livros de papel. Até mesmo porque o objetivo deste meu texto não é polemizar sobre a possibilidade, ou não, do desaparecimento do livro impresso em face do advento das novidades tecnológicas trazidas com o chamado livro digital. Na verdade, quero falar mesmo é acerca da atividade da leitura e não de um pretenso fetiche em torno desse objeto quase que perfeito (e que ainda muito amo e cada vez mais) a que denominamos livro.

É que sou pai e tio de adolescentes. E tenho – além das responsabilidades e deveres familiares – e até pelo envolvimento direto com o mundo das letras, a missão de mostrar o valor do livro e da leitura para os meus filhos e sobrinhos. Vivo preocupado com o fato dos adolescentes hoje terem muito mais contato com a internet (nem sempre dispondo das reais maravilhas que esse instrumento tecnológico pode oferecer) do que com o mundo da leitura literária, especificamente aquela a que me referi no primeiro parágrafo. As crônicas, contos, poemas, novelas, romances têm às vezes passado ao largo das preocupações dessa juventude frenética e excitada com os bytes dos computadores.

Neste primeiro texto sobre o assunto minha singela intenção é mesmo e tão-somente a de levantar o tema para debate com os demais pais (escritores ou não), bem como os professores (e suas espinhosas missões) e intelectuais que queiram se dedicar, de alguma forma, a essa preocupação que – acredito – trago oportunamente às folhas deste veículo, frente a tantas mudanças que, muitas vezes, pegam a gente de surpresa e sem a compreensão exata para adoção de posicionamentos e firmes colaborações. Afinal todos temos alguma responsabilidade sobre a educação e compromissos sociais dos nossos jovens. E hoje, aqui neste espaço, apenas inauguro essa nossa conversa. Prosseguiremos num outro momento, caros leitores.

*Texto também publicado no jornal Tribuna do Norte.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Lívio Oliveira 1 de outubro de 2013 16:40

    É isso mesmo, amigos. Achei que deveria tocar no tema, principalmente ao tomar conhecimento de alguns dados sobre analfabetismo no RN. Vou dar continuidade na próxima semana, tentando discutir mais alguns aspectos. De fato, como Tácito afirma, há muitos mistérios envolvidos na questão livro/leitura.

  2. Tácito Costa 1 de outubro de 2013 15:26

    Lívio, o amor pelos livros continua um mistério insondável para mim. Conheci pessoas que nasceram entre livros (e filmes) e tiveram exemplo em casa deste amor e no entanto não viraram leitores, sequer de Paulo Coelho. Outros, com todas as condições adversas, sem contar nem com bulas de remédio para ler, se transformaram em grande leitores. Claro, quem está mais próximo dos livros e tem pais ou bons exemplos a seguir, sempre terá muito mais chances de se tornar um leitor. Mas não é algo automático. Existe algo aí nesse meio campo que foge a minha compreeensão. Importante e oportuno você levantar essa questão da leitura.

  3. Jarbas Martins 1 de outubro de 2013 11:17

    Leitura obrigatória para mim, toda terça-feira, antes de abrir o computador.Salve, L[ivio.

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