Gostar de ler – II

Estive em João Pessoa e Recife nesse último final de semana, em mais uma das minhas muitas visitas àquelas capitais. Essas duas cidades sempre me foram e são muito especiais, não só pela exuberância de suas praias – belas como as da nossa Natal e do Rio Grande do Norte – mas porque demonstram saber, claramente, lidar com seus patrimônios históricos e artísticos e por preservarem monumentos criados pela natureza ou pelo homem. Recife e outras cidades de Pernambuco sempre me impressionam pela forte valorização da cultura e de todas as artes, além de um orgulho destacado do pernambucano em ter nascido naquele solo – que é mesmo sagrado para todos eles. João Pessoa, capital altaneira da Paraíba, tem me dado fortes lições de respeito à natureza e ao verde, sendo também um forte exemplo de cidade que busca empreender culturalmente e manter acesa e firme a chama das tradições e dos valores artísticos de seus habitantes, com zelo e senso de pertencimento em torno dos seus principais nomes.

Essas duas cidades nordestinas – que nos são tão próximas em alguns aspectos e tão distantes em outros – foram e têm sido um forte propulsor do meu interesse pela leitura. Quando criança e adolescente passei muitos períodos de férias em João Pessoa e alguns em Recife. Nessas ocasiões, em meio aos entretenimentos diversos, tinha a oportunidade de conhecer novos livros, além daqueles da biblioteca do meu pai. Meus tios todos e minha avó paterna cultuavam o apego pelos livros e pela leitura e, com isso, me contaminavam e os meus primos com esse gérmen, esse vírus bondoso. Tive em João Pessoa, por exemplo, a oportunidade de ver, no realce das belas lombadas, as primeiras palavras em francês, olhando para os muitos exemplares na língua de Sartre que meu Tio Gabriel Alves de Oliveira cultuava fortemente, principalmente os volumes de Gustave Flaubert. Ainda não imaginava que depois eu também me tornaria um amante da língua, cultura e arte da França, tendo sido orgulhoso membro do Comitê Diretor da Aliança Francesa de Natal, como meu querido e inesquecível tio foi – tendo ele exercido a presidência da entidade coirmã paraibana.

Ali em João Pessoa, intercalando com os mergulhos nas praias de Tambaú e Cabo Branco e as pedaladas ciclísticas, eu lia, adaptados, quase todos os principais contos clássicos infanto-juvenis, irmãos Grimm e La Fontaine. Ali folheei alguns romances policiais e de mistério e também descobri que havia vultos na literatura nacional que atendiam pelos nomes de Augusto dos Anjos, José Lins do Rego (cheguei a fazer algumas leituras na biblioteca do Espaço Cultural que leva o seu nome), José Américo de Almeida (cuja casa-museu na orla pessoense acaba de ser reformada) e vários outros. Em minha infância e em minha adolescência aprendi muito nas casas da Alameda Faraco e Avenida Índio Arabutã, principalmente acerca do valor da palavra escrita.

Em Recife não havia de ser diferente. Apesar de ter visitado aquela Capital menos do que João Pessoa, desfrutei ali do sentimento recifense de valorização da cultura, tendo um dia passeado por entre as estantes da saudosa “Livro 7”, marco da cultura local, e visitado e me envolvido com outros diversos espaços culturais, estes revisitados ainda hoje. Nessa minha última viagem andei fotografando os bustos dos poetas num especial circuito que margeia o Capibaribe e ingressa noutros pontos da cidade. São vários os homenageados, poetas populares ou eruditos: João Cabral, Manuel Bandeira, Ascenso Ferreira, Capiba, Joaquim Cardozo, Solano Trindade, dentre outros nomes.

Toda vez que retorno dessas visitas às capitais primas-irmãs me pergunto, com o coração inflamado por uma certa inveja melancólica: o que andamos fazendo, nós os potiguares,em prol da preservação e valorização (ressalvadas as poucas e louváveis exceções já bem conhecidas) dos nossos bens materiais, imateriais e humanos relativos à arte literária e às demais manifestações culturais e artísticas de nosso povo?

FOTO [ Natalie Wood reading Thomas Wolfe’s ‘The Hills Beyond’ to Dennis Hopper and Nick Adams ] 1956

*Texto publicado também no jornal Tribuna do Norte.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 3 comments for this article
  1. Anchieta Rolim 9 de Outubro de 2013 13:02

    É isso: “O que andamos fazendo?” Boa pergunta Lívio. Texto massa!

  2. Lívio Oliveira 9 de Outubro de 2013 16:36

    Seria tão bom se as coisas mudassem, amigo Anchieta…

  3. Alex de Souza
    Alex de Souza 9 de Outubro de 2013 16:43

    tácito, tou invadindo aqui o post de Lívio pra ver se você me dá uma moralzinha e libera o evento que cadastrei lá na agenda, antes que o bichinho comece, hehehehe

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