O gosto do povo

O comportamento da massa, que é a representação do povo em movimento, não se prende a reflexões ou questionamentos intelectivos.

A expressão “povo em movimento” usada no parágrafo anterior não significa apenas a massa mobilizada geograficamente. O chamado “povo na rua”. Não. Serve também para a medição de humor da opinião pública, na rua ou em casa, movida por paixões momentâneas.

A palavra “povo” aqui expressa não leva em conta o rigor significativo, consistente na constatação de que somos ainda um pré-povo, derivado da pré-humanidade que habita o planeta. Nem a observação de que povo é tão somente uma abstração, usada e manipulada ante a presença hegemônica e maléfica do Estado.

O Estado corrupto arroga-se o direito do combate à corrupção. Violento, diz combater a violência. Ineficiente, vende-se como necessário. Inútil, mostra-se insubstituível. Perdulário, cobra parcimônia.

Mas esse não é o tom do presente texto. Quero aqui tratar de coisa mais amena, da fisionomia volátil e tragicamente ridícula da massa; ou do povo em movimento. Trágica porque oscila entre desgraças ou convulsões. Ridícula pela mutação descaradamente movida por paixões.

A paixão é uma deformação afetiva. Um impulso da condição humana, que no indivíduo imbeciliza e no coletivo convulsiona.

Nos dois casos não há controle do processo deflagrado. E geralmente vira monstro, após nascer inofensivo.

A lição de Samuel Taylor Coleridge nos remete à reflexão: A paixão escurece nossos olhos e a luz que a experiência nos dá é de uma lanterna na popa; só ilumina as ondas que já passaram.

Foi dessa máxima que Roberto Campos retirou o título das suas memórias, “Lanterna na Popa”.

O gosto do povo é de paladar oscilante. Gustativamente confuso e pueril. Levado por paixões que dispensam avaliações e questionamentos. Sai da canonização para a excomunhão sem qualquer escrúpulo analítico.

Há uma assertiva do pensamento puro de que a exemplificação empobrece o raciocínio filosófico. Posto que a argumentação deva bastar-se pela força do enunciado. E o exemplo reduz o alcance genérico.

Mas não resisto e exemplifico. No auge da crise política de 1954, Getúlio Vargas percebeu que perdera o apoio popular. Fora vaiado na última viagem oficial, que fez a Minas Gerais. Na ida e na volta. Sentiu a falta do apoio popular para tentar a resistência.

E para não ser um morto-vivo, como chamara, nos anos Quarenta, seus adversários dos anos Vinte, resolveu não repetir o gesto da primeira deposição. “Daqui só saio morto”. Era o cemitério em vez de São Borja. Apostou na comoção que o passional fabrica. Um cadáver e uma carta disparam o projétil cujo alvo foi o coração do povo.

A madrugada alterou tudo. E a crise mudou de lado. Té mais.

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

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