Governo de Israel é o pior inimigo de Israel

Por Nicholas Hristof
Colunista do New York Times (NO ESTADÃO)

Ampliação de assentamentos corrói esperança de paz com palestinos e aumenta o isolamento diplomático

Durante anos, líderes palestinos pareceram os piores inimigos do seu povo. Os radicais palestinos provocaram o antagonismo do Ocidente, e, quando os líderes militantes começaram a apelar para sequestros e foguetes, acabaram prejudicando a causa palestina no mundo todo – para quem eles justificavam atos de colonos e falcões e enfraqueciam as pombas israelenses.

O mundo hoje está de cabeça para baixo. Agora é Israel que coloca em risco a maior parte dos seus líderes e os defensores da posição radical. O primeiro-ministro Binyamin Netanyahu está isolando seu país, e, francamente, sua intransigência na questão dos assentamentos parece uma política nacional suicida.

Nada é mais corrosivo do que a ampliação dos assentamentos de Israel. Eles destroem a esperança de um futuro acordo de paz. O mais recente passo em falso de Netanyahu ocorreu depois que o governo de Barack Obama se humilhou exercendo uma pressão diplomática para bloquear a solicitação palestina de reconhecimento do seu Estado na ONU.

Num momento em que Obama tinha outras prioridades – por exemplo, evitar um derretimento econômico global -, os EUA ameaçavam vetar o pedido de reconhecimento de um Estado palestino ao qual todo mundo era favorável.

Enquanto o conflito diplomático se desenrolava na ONU, Israel anunciou planos para a construção de mais 1.100 unidades habitacionais numa parte de Jerusalém fora de seus limites anteriores a 1967. Em vez de mostrar sua apreciação ao presidente Obama, Netanyahu recorreu a um golpe baixo.

Agora, prevejo uma avalanche de respostas iradas. Entendo que muitos insistam que, de qualquer maneira, Jerusalém deve pertencer inteiramente a Israel em um acordo de paz, portanto os novos assentamentos não contam. Mas, se essa é a posição, pode-se dizer adeus a qualquer acordo de paz.

Todo negociador conhece o quadro de um acordo de paz – as fronteiras de 1967 com troca de terras, Jerusalém como capital do Estado israelense e do palestino, e apenas o direito simbólico de retorno dos refugiados. A insistência numa Jerusalém totalmente israelense significa que não haverá acordo de paz.

O ex-presidente dos EUA Bill Clinton recentemente culpou Netanyahu pelo fracasso do processo de paz no Oriente Médio. Um fator secundário, observou Clinton, é a mudança demográfica e política na sociedade israelense, que tornou o país mais conservador nas questões das fronteiras e das terras.

Intransigência

Netanyahu está longe de ser o único obstáculo à paz. Os palestinos estão divididos, com o Hamas controlando Gaza. E o Hamas não só oprime o seu próprio povo como também conseguiu devastar o movimento pela paz em Israel. É a coisa mais triste na questão do Oriente Médio: intransigentes, como o Hamas, de um lado, acabam fortalecendo autoridades intransigentes como Netanyahu, do outro.

Atravessamos um período perigoso na região. A maioria dos palestinos parece achar que o processo de paz virou fumaça, e os israelenses parecem concordar. Dois terços deles afirmaram numa recente pesquisa de opinião publicada pelo jornal Yediot Ahronot que não há nenhuma possibilidade de paz com os palestinos – e jamais haverá.

A esperança mais acalentada pelos palestinos seria um amplo movimento das bases de resistência pacífica não violenta, liderado pelas mulheres e inspirado na obra de Mahatma Gandhi e do reverendo Martin Luther King. Um número cada vez maior de palestinos apoia variações desse modelo, embora às vezes o deturpem quando atiram pedras e atribuem o protagonismo a jovens de cabeça quente.

O Exército de Israel pode lidar com terroristas suicidas e foguetes. Não tenho certeza se poderia derrotar mulheres palestinas bloqueando estradas que levam a assentamentos ilegais e dispostas a suportar gás lacrimogêneo e pauladas – com vídeos imediatamente postados no YouTube.

Netanyahu também comprometeu a segurança israelense rompendo com o amigo mais importante de Israel na região, a Turquia. Agora, há também o risco de confrontos no Mar Mediterrâneo entre navios israelenses e turcos. É uma das razões pelas quais o secretário da Defesa dos EUA, Leon Panetta, recriminou o governo israelense por isolar-se diplomaticamente.

Se um acordo de paz não for concluído logo, e Israel continuar sua ocupação, será melhor conceder o direito de voto aos palestinos nas áreas controladas por eles nas próximas eleições israelenses.

Se os judeus da Cisjordânia podem votar, os palestinos também.

Democracia é isso: as pessoas têm o direito de votar para escolher o governo que controla suas vidas. Alguns israelenses pensarão que estou sendo injusto e duro, que uso dois pesos e duas medidas, destacando os defeitos israelenses e dando menos atenção a outros países da região. Justo: declaro-me culpado.

Aplico a norma mais dura a um estreito aliado americano como Israel, que é beneficiado por uma enorme ajuda americana.

Amigos não permitem que outros amigos sigam uma linha diplomática que deixa o seu país se desviar de toda esperança de paz. Hoje, os líderes israelenses comportam-se como os piores inimigos do seu país, e enfatizar isso é um ato de amizade.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo