Goya contra a repetição

Por José Castello
A LITERATURA NA POLTRONA

Ando sempre a refletir a respeito dos males provocados pelos modelos engessados, pelas fórmulas prontas e pela repetição _ fortes características, infelizmente, do mundo contemporâneo. Lendo “Goya/ À sombra das luzes”, de Tzvetan Todorov (Companhia das Letras), encontro um pensamento do pintor espanhol que ilumina algo importante a respeito da arte da transmissão. Escreve Goya, em um relatório à Academia de Arte, datado de 1792: “Não há regras em pintura e a opressão, ou a obrigação servil de fazer estudar a mesma coisa ou de seguir o mesmo caminho, é um grande obstáculo para os jovens que escolhem essa tão difícil, que se aproxima do divino mais do que qualquer outra, por representar tudo o que Deus criou”.

Agora que me preparo para dar oficinas literárias em Santa Catarina (Jaraguá do Sul e depois Joinville) na semana seguinte ao carnaval _ promovidas pelo SESC _, esse pensamento de Goya vem iluminar meu caminho. Ninguém pode saber o que alguém precisa saber, ou deixar de saber, para tornar-se um escritor. Cada um trilha um caminho solitário e único. Trocando a pintura pela literatura, o pensamento de Goya fica assim: “Não há regras em literatura e a opressão, ou a obrigação servil de fazer estudar a mesma coisa ou de seguir o mesmo caminho é um grande obstáculo para os jovens”. Mas como então dar uma oficina literária se, a cada aluno, devemos dizer uma coisa diferente?

Pois o segredo parece estar justamente aí: levar os alunos a valorizar, em vez de desprezar, as diferenças imensas que existem entre eles. Para chegar a elas, resta ouvir _ e ensiná-los a ouvir também. Comenta Todorov: “A pluralidade dos caminhos que permitem aproximar-se do objetivo é colocada de saída, assim como a necessidade de dar a cada indivíduo o direito de escolher o dele”. Dirão os mais temerosos: “Mas isso tira a autoridade do professor”. Pergunto: mas quem falou em professor? Uma oficina não é uma aula, em que se trasmite determinado legado, ou tradição. Ao contrário: uma oficina é um desafio, em que se estimula o aluno (mas a palavra, aluno, é péssima nesse caso) a divergir, a desviar-se, a encontrar seu próprio caminho e construir seu próprio destino.

Falamos muito, hoje, da brutalidade do mundo, mas não percebemos que parte dessa brutalidade é um efeito perverso da repetição. Da obrigação de repetir e de copiar. Vivemos no mundo do “copiar e colar”. Caminho perigoso, que só conduz ao tédio e ao desencanto. Ao ódio à diferença e à invenção de si. Prossegue ainda Todorov: “Para isso, o estudo é necessário, mas depende do conhecimento do mundo, e não dos modelos antigos”. Cabe acrescentar que o conhecimento do mundo começa, sempre, pelo conhecimento de si mesmo. E que este é uma experiência radicalmente individual, que não permite a cópia, nem a repetição. Pois elas são a morte da arte.

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Danclads Andrade
    Danclads Andrade 30 de Março de 2014 13:22

    O mundo do “control v, control c”, escraviza os artistas a modelos preexistentes, sufocando a criatividade – e olha que, no caso da Literatura, não há mais escolas literárias com seus padrões de escrita -, nem a arte é um patrimônio do governo, como era na URSS, one os artistas tinham que seguir certos padrões determinados pelo partido. Como poderá surgir novos estilos, novas tendências, se as amarras aos modelos estéticos do passado imobilizam o artista?

    O texto, além de bem escrito, é bastante oportuno, abordando assunto que se vê pouco divulgado mídia afora.

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