‘Graça Infinita’ chega ao País

Título original: ‘Graça Infinita’, testamento literário de David Foster Wallace, chega ao País

Por Maria Fernanda Rodrigues
O ESTADO DE S. PAULO

Para o tradutor Caetano Galindo, autor foi o mais corajoso dos reformadores formais do romance nas últimas décadas

Graça Infinita (que o leitor não confunda com a obra da best-seller Danielle Steel) é um dos livros mais cultuados das últimas duas décadas. Lançado em 1996, é o segundo e último romance de David Foster Wallace (1962-2008) – ele até tinha planos de escrever mais, mas desistiu da vida precocemente, deixando parte dos originais de Pale King organizada. A tradução dos fragmentos deste que seria seu terceiro romance está nas mãos de Caetano Galindo, responsável, também, por verter Graça Infinita para o português.

O contato do tradutor com esta monumental obra que chega às livrarias dia 27 – são mais de mil páginas e diversos personagens e núcleos narrativos (leia a resenha) – ocorreu após outra tarefa hercúlea de Galindo. “Era um momento de total imersão no Ulysses e eu estava em busca de uma prova de que havia vida inteligente, inovadora, na ficção recente. Wallace foi a minha boia de salvação”, conta. Ele passou anos lendo tudo o que podia do autor e pensando em formas de escrevê-lo em português.

Esse mergulho por curiosidade foi primordial para que ele conseguisse dar conta do trabalho em um ano – a tradução para o alemão, ele conta, levou seis anos. Sobre os desafios, diz que são os mesmos dos bons romances, “mas em escala muito violenta”. Cita ainda o fato de que o registro mais típico do livro é uma “prosa onívora, composta de oralidade, de tudo quanto é tipo de jargão e de níveis diversos de formalidade e erudição, misturados num registro semifalado que é uma perfeição em termos de ‘tom’, mas que nem sempre atende, por exemplo, as exigências da gramática normativa”.

Encontrar essa voz wallaceana foi um desafio constante, mas Galindo explica que talvez o maior problema tenha sido “acompanhar o Wallace no que a ficção dele tem de mais forte, que é o mergulho total e compreensivo, compassivo, em todo tipo de mentes e de problemas. Traduzir certos trechos foi até doloroso”.

Foster Wallace era filho de professor de Filosofia e de professora de Letras e acabou estudando as duas disciplinas – interessava-o a lógica, sobretudo. “Há muito da obra de um pensador por trás da ficção dele. Graça Infinita é prosa lindíssima, é uma mente inventiva demais, mas é também um enigma filosófico e o enigma de um filósofo, é o romance visto como tubo de ensaio do mundo, da realidade”, comenta o tradutor, que o considera o mais corajoso dos reformadores formais do gênero nas últimas décadas.

Sua leitura não é difícil, mas a interpretação é complicada. Quem se perder, pode acessar a Infinite Jest Wiki (em inglês), criada por fãs do livro, com anotações página a página, mapa de personagens, índices. O culto ao livro, que levou à produção, inclusive, de filmes inspirados no trabalho de um dos personagens, vem, na opinião do tradutor, da sensação de novidade. “É difícil ler o Wallace e não sentir que ele está dizendo coisas novas, importantes, de um jeito novo, impressionante.” Apenas dois livros dele foram publicados aqui antes de Graça Infinita: Breves Entrevistas Com Homens Hediondos (2008), de contos, e Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio Longe de Tudo (2012), de ensaios.

Sobre o que interessava o escritor, que por 20 anos lutou contra uma depressão, Galindo responde: “O que importa para ele é você. Eu. É estar vivo no mundo de hoje, tão difícil de entender, tão duro, e ter dentro da gente as mesmas coisas, as mesmas angústias e os mesmos delírios, que sempre estiveram na humanidade. A invenção formal, o brilhantismo linguístico, tudo nele é instrumento para lidar com essa tarefa bem maior, esse diagnóstico de pedaços de vidas humanas nos Estados Unidos da virada do milênio”.

Graça Infinita
Autor: David Foster Wallace
Tradução: Caetano W. Galindo
Editora: Companhia das Letras (R$ 111,90)
Nas livrarias dia 27/11

Confira o trecho inicial do romance
“Estou sentado num escritório, cercado de cabeças e corpos. Minha postura está conscientemente moldada ao formato da cadeira dura. Trata-se de uma sala fria da Administração da Universidade, com paredes revestidas de madeira e enfeitadas um Remingtons, janelas duplas contra o calor de novembro, insulada dos sons administrativos pela área da recepção à sua frente, onde o Tio Charles, o sr. deLint e eu tínhamos sido recebidos um pouco antes.

Eu estou aqui.
“Três rostos ganharam nitidez logo acima de blazers esportivos de verão e meios–windsors do outro lado de uma mesa de reunião envernizada que reluzia sob a luz aracnoide de uma tarde do Arizona. São os três Gestores – de Seleção, Assuntos Acadêmicos, Assuntos Esportivos. Não sei qual rosto é de quem.
Acredito que a minha aparência seja neutra, quem sabe até agradável, embora tenham me instruído a ficar mais para a neutralidade e não tentar o que para mim pareceria uma expressão agradável ou um sorriso.
Eu decidi cruzar as pernas, espero, com cuidado, tornozelo no joelho, mãos juntas no colo da calça. Estou com os dedos emaranhados numa série especular do que se manifesta, para mim, como a letra X. O resto dos envolvidos na entrevista são: o Diretor de Redação da Universidade, o técnico da equipe de tênis da instituição e o Gestor da Academia, o sr. A. deLint. O C.T. está ao meu lado; os outros, respectivamente sentados, de pé e de pé na periferia do meu campo de visão. O técnico de tênis está sacudindo moedinhas no bolso. Há algo vagamente digestivo no odor da sala. O solado de alta aderência do meu tênis Nike de cortesia corre paralelo ao mocassim balouçante do irmão da minha mãe, aqui presente como Diretor, sentado na cadeira que está imediatamente onde, espero, seja a minha direita, também encarando os Gestores.”

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