Gracias a La Negra

sosa

POR PAULO BENZ
Poeta e Servidor Público Federal
paulobenz@uol.com.br

“Morreu Haydée Mercedes Sosa, La Negra, como era conhecida em razão de seus cabelos escuros. Aos 74 anos, deixa a lacuna de sua voz e de seu canto a argentina de San Miguel de Tucumán, que por muitos foi reivindicada como um patrimônio latinoamericano, muito além da sua nacionalidade.

Nascida de família humilde, apresentou-se pela primeira vez com o pseudônimo de Gladys Osorio, para obter um contrato de dois meses numa emissora de rádio de Tucumán, a título de prêmio. Como o próprio site oficial da cantora preconiza, foi o princípio.

Na década de 70 (século passado, para me lembrar da passagem do tempo!) a voz de Mercedes Sosa entoava, dentre as músicas do novo cancionero, movimento de renovação do folclore argentino, com enfoque na vida cotidiana com as alegrias e tristezas do homem comum, os hinos libertários que moviam nossos sonhos juvenis, de uma América do Sul unida, de Norte a Sul, de mar a mar, como uma das suas canções narrava. Naquele tempo ainda tínhamos uma visão bem mais idílica sobre muitos dos mitos que a história derrubou.

Talvez tenha sido a maior responsável pela familiaridade que a língua espanhola trouxe ao meu ouvir, de tanto repetir os bolachões de vinil com as suas cantigas.

E lembro de uma dessas tertúlias, por ter sido ímpar. Morando em Manaus, já pelas quebradas do final da década de 80, cuidava de esvaziar uns copos com alguns amigos, dentre os quais um uruguaio que tinha vivido longos anos em Buenos Aires. Foi quando, depois de Milton Nascimento, Chico Buarque e Caetano; Clapton e Cat Stevens, saquei do meu arsenal “A Arte de Mercedes Sosa”, “álbum” duplo de capa branca. David, já encaminhado por umas tantas e quantas “botellas” esvaziadas, marejou os olhos e bradava que havia muitos anos que não escutava aquela voz maravilhosa. Desnecessário dizer que a briga com as garrafas estendeu-se madrugada adentro, com o vai e vem dos dois vinis sendo repetidos. Tarde seguinte, com a ressaca previsível e uma preocupação danada com o amigo que saiu pilotando uma Chevrolet C10, cujo pára-choques havia sido substituído por um pedaço de trilho, liguei para saber como o saudosista havia chegado em casa depois de quase desidratar, tantas as lágrimas. Narrou que não lembrava como, mas conseguira chegar em casa. Contudo, estava intrigado com o trilho amassado. Não lembrava onde havia esbarrado.

Fiquei pensando no estrago que ele deixou pelo caminho, quem sabe culpa do reencontro com a voz de Mercedes Sosa.

Creio que nenhuma música a tenha projetado mais do que Gracias a La Vida, composta pela chilena Violeta Parra (também autora de outro ícone na voz de Mercedes, em parceria com Milton Nascimento: Volver a los 17), mas uma das músicas que mais me agrada é “Alfonsina y el mar”, referência à poetisa portenha que findou com a própria vida caminhando mar adentro. A estrofe da canção assim diz: “Te vas Alfonsina / Con tu soledad /  ¿Qué poemas nuevos /  Fuíste a buscar? / Una voz antigüa / De viento y de sal / Te requiebra el alma / Y la está llevando / Y te vas hacia allá / Como en sueños / Dormida, Alfonsina / Vestida de mar”.

Quando o corpo de Mercedes adentrou ao cemitério La Chacarita, de Buenos Aires, donde se queda agora “vestida de la tierra”, quem sabe alguém tenha sussurrado baixinho um “gracias”, pelo legado musical que deixou, um Gracias a La Negra.”

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