Graciliano pouco conhecido‏

Por Affonso Romano de Sant’Anna
NO ESTADO DE MINAS

Em 1992 – quando transcorreu o centenário de nascimento de Graciliano Ramos –, a Biblioteca Nacional fez uma exposição, sob vários sentidos, original. O ministro da Justiça, Célio Borja, atendendo a um pedido meu, liberou, pela primeira vez, uma série de documentos (do tempo da ditadura de Getúlio) sobre a prisão e a vida política do escritor. A imprensa registrou e o próprio Célio Borja esteve na Biblioteca Nacional (BN). Isso fazia parte do projeto de inserir aquela instituição na vida cultural brasileira. Rever Graciliano, sob vários ângulos, era revelador.

Outro aspecto singular daqueles festejos foi levar à BN familiares e pessoas ligadas à biografia do velho Graça. O pesquisador Moacyr Sant’Ana disponibilizou seu surpreendente arquivo sobre o escritor. Na ocasião, Nelson Pereira dos Santos deu detalhes curiosíssimos sobre a filmagem de Vidas secas. E a segunda esposa do escritor, Heloísa Ramos, lá esteve contando (familiarmente) coisas interessantes. Revelou que tinha ainda seis cartas de amor além das que foram publicadas no volume Cartas, de 1980. Tentei seduzi-la a doar essas cartas para a BN, prometendo que seriam devidamente restauradas. Mas parece que Marilena Chauí, então secretária de Cultura da Prefeitura de São Paulo, havia chegado antes.

Um fato desconcertante foi o não depoimento de Alberto Passos Guimarães. Como se sabe, o primeiro livro de Graciliano, Caetés, foi encomendado por Augusto Frederico Schmidt, que ficou impressionado com o famoso relatório que Graciliano fez sobre suas façanhas na Prefeitura de Palmeira dos Índios. O volume é dedicado a três pessoas: Alberto, Jorge Amado e Santa Rosa. Quando chamei Alberto Passos Guimarães ao microfone, esperava que ele fizesse um substancioso depoimento. Afinal, ele, como Aurélio Buarque e Rachel de Queirós, havia convivido em Maceió com Graciliano. Além disso, foi do Partido Comunista, portanto, teria muito que contar.

Nada disso ocorreu. Diante do microfone, Alberto quedou-se mudo. Eu lhe dizia: “Alberto, você pode contar qualquer coisa, um fato cotidiano, algo engraçado”. E ele, nada. Eu insistia. E ele, mudo. Até que depois de alguns angustiantes minutos ele simplesmente disse: “Desculpe… Mas não me lembro de nada”. E sentou-se.

Daí para a frente, convenci-me de que é necessário registrar a memória enquanto ela existe. Alberto morreu no ano seguinte, em 1993, aos 85 anos.

Descubro em minha estante várias preciosidades. O livro Cartas à Heloísa com autógrafo carinhoso de Heloísa; o volume Cadeia, com dedicatória da filha, Clara Ramos, que foi várias vezes à BN, e o livro escrito pelo filho, Ricardo Ramos, com quem estive várias vezes: Graciliano: retrato fragmentado.

Revejo alguns documentos de e sobre Graciliano que foram copiados no volume artesanal da BN, Coleção Letra Viva – Graciliano Ramos, 100 anos. Ali está um artigo assinado por Graciliano quando tinha 12 anos, no jornal Dilúculo. Era um “órgão do internato alagoado” e os redatores eram Cícero de Vasconcelos e Graciliano Ramos. Como não havia internet, era assim que se iniciava na vida literária. Drummond, com 16 anos, estreou no Aurora Colegial do internato do Colégio Anchieta, em Nova Friburgo.

Entre os curiosos documentos que reunimos naquela exposição, alguns dizem respeito à complexa relação entre a ditadura e a literatura. Está lá o perfil de Graciliano feito pela Secretaria de Segurança relatando suas atividades ligadas ao PCB. A polícia de Vargas mandou prender Graciliano, mas, assim que foi solto, seus amigos escritores trataram de arranjar para ele um emprego no governo de Vargas. Assim, Rodrigo de Melo Franco faz um atestado afirmando que Graciliano era “excepcional talento” e poderia trabalhar no Instituto Nacional do Livro. Depois, outro documento com assinatura de Vargas e de Gustavo Capanema nomeia “interinamente” Graciliano para inspetor de estabelecimento de ensino secundário no Distrito Federal. A seguir, foi designado por Abgar Renault para a Escola Técnica Secundária Rivadávia Corrêa.

João Condé mostrou-me em sua casa os originais manuscritos de Angústia. Esse Condé era uma preciosidade. Pagava aos autores para fazerem depoimentos para seus Arquivos implacáveis. Encontro uma indagação dele a Graciliano: “Por que entrou para o Partido Comunista?”. E a resposta seca do autor de Vidas secas: “Naturalmente, porque sou comunista. É uma resposta besta, mas não tenho outra. Acho que deixei isso bem claro na minha vida e na minha escrita”.

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