Grande Ponto

Fernando Monteiro envia, por e-mail, texto publicado no Jornal do Commercio (PE) de ontem, assinado por Arthur Carvalho.

Arthur Carvalho (*)

E-mail de Fernando Monteiro transcrevendo “Geografia sentimental do Grande Ponto”, texto antológico de José Maria Guilherme, recentemente reproduzido no blog http://substantivoplural.com.br/. Pra quem não sabe, o Grande Ponto é um ponto tradicional de Natal, onde acontecem coisas do arco da velha, há muitos e muitos anos. José Guilherme não menciona com exatidão quando aconteceram os episódios por ele narrados – nem precisa. Mas devem se situar entre 1940 e 1960, por aí.

Quando chegamos a Natal, em fins de 1948, meu pai estranhava que os pedestres ficassem conversando, em pé, em grupelhos, no meio do Grande Ponto. E o pessoal não se afastava quando papai buzinava, pedindo passagem. Afinal – pensava papai – os grupos ficavam estáticos “no meio da rua”. Ele custou a entender que aquilo era um costume dos habitantes, e, portanto, uma questão cultural.

Da nossa época, José Guilherme citou Jaecy “O Fotógrafo Poeta”, os cinemas Rex e Pax, a Sorveteria Cruzeiro, de Antônio China, a Casa Vesúvio, de Rômulo Maiorana, que foi morar em Belém, onde construiu um império constituído de jornal, rádio e televisão, o Botijinha, de Jardelino, o Estádio Juvenal Lamartine, onde jogamos algumas vezes pelo Guarany Esporte Clube, fundado por Levi Caminha e meu irmão Carlos Aloysio, enfrentando o infanto-juvenil do ABC de Ezequiel Ferreira de Souza, Paulo Eduardo Firmo de Moura e Fabiano Veras, o América, de Kléber de Carvalho Bezerra e Etevaldo Miranda, o famigerado Teté, também conhecido como “Vírgula” pelas suas pernas arqueadas, as Lojas Seta, onde muitos anos depois acompanhei, constrangido, a diligência de um oficial de Justiça na penhora de bens de uma ação executiva movida contra ela por Confecções Torre S.A., do Recife, da qual eu era advogado.

José Guilherme escalou um alegre time de “veados e outros animais honestos que formavam a ecologia daquela Passárgada: o mitológico Rei Momo Luizinho Doblechen, Pinóquio, Detefon, Madame Sônia, a Cartomante, e “seu” Martins, professor de Clodovil.” Esqueceu Velocidade e Biguá, cujo apelido teve origem na sua semelhança física com o lendário paraense que formou a célebre linha-média tricampeã do Flamengo (1942, 1943 e 1944): Biguá, Bria e Jayme de Almeida.

José Guilherme falou também no famoso Coronel Guerreiro, pai de uma morena linda. Os irmãos da morena, cujo nome eu esqueço, mandavam que ela caminhasse na frente deles para dar porrada em quem a cantasse. Relembrou Ivanildo “Deus” advogado, que encontro, de vez em quando, na Rua da Imperatriz. Em Desenho, o maior presepeiro natalense. Nos desfiles de Maria Boa, em pleno Grande Ponto “que aos domingos, cinco da tarde, hora em que a nata da sociedade natalense se concentrava ali, passava devagarzinho, acintosamente, no seu “conversível”, com motorista e tudo, abarrotado das prostitutas respeitáveis e mais bonitas da cidade, a maioria importada, cuja porta-estandarte era Eurídice, gaúchona de 50 talheres”. Além de Maria Boa, tínhamos Francisquinha, Belinha e Vanda, festejadas donas de pensão, devidamente protegidas pela polícia, e mais altos e circunspectos membros dos poderes executivo, legislativo e judiciário federais, estaduais e municipais.

(*)Arthur Carvalho, advogado e articulista do JC, é da Associação Brasileira de Imprensa-ABI

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