O Grande Retrocesso

No dia 13 de fevereiro de 1929, estreou em Moscou a peça “O percevejo”, uma comédia fantástica escrita pelo poeta Vladímir Maiakóvski. A peça conta a história de Pierre Prissípkin, um ex-operário, ex-membro do partido bolchevique, que está prestes a se casar com uma manicure, que trabalha como caixa em um instituto de beleza.

No dia do casamento ocorre uma tragédia: um incêndio no hotel onde a festa ocorria supostamente mata todos os personagens presentes ao evento. Quando os bombeiros chegam ao local contam os corpos e notam a falta de um. A peça então dá um salto para o futuro.

A ação dramatúrgica se transfere exatamente para a mesma data da festa de casamento, só que cinquenta anos depois, em 12 de Maio de 1979.

O corpo de Prissípkin é finalmente encontrado, congelado junto com um percevejo que estava na gola de sua camisa. O personagem, e seu percevejo, são então ressuscitados.

Ao despertar de uma hibernação de cinquenta anos, Prissípkin fica completamente aturdido. Ele descobre estar em um mundo onde a revolução comunista global havia finalmente triunfado, mas não consegue se adaptar a realidade que encontra.

Tratado como um espécime perigoso e contagioso, um estranho tipo de parasita humano oriundo de um passado obscuro, acaba sendo preso em uma jaula e exposto em um jardim zoológico, junto com o percevejo que trazia na gola da camisa.

O personagem central da peça de Maiakóvski transita de um espaço dramatúrgico cômico para o campo do trágico.  O boêmio bebedor de vodka, que abandona a luta partidária seduzido pelas promessas pequeno burguesas da nova política econômica (NEP) de Lênin, ridicularizado no começo da peça, se torna no final do espetáculo, o portador de um recado trágico para um mundo futuro.

Ressentimento nacionalista

Em uma realidade moldada sem emoções ou liberdade, o pobre Prissípkin é encarado como o transmissor de uma doença a ser combatida: a subjetividade poética que o lirismo burguês supostamente inventou.

Para alguns críticos, como o tradutor e ensaísta Boris Schnaiderman, a peça de Maiakóvski talvez seja a primeira grande denúncia do período na Revolução Russa que veio a ser chamado de “O grande retrocesso”.  

Esse movimento é lido como “um freio de arrumação” em meio a grande agitação política que sucedeu o fim da guerra civil e as reações da esquerda do partido bolchevique contra a Nova Política Econômica dos anos 1920.

De certo modo, o grande retrocesso anuncia a chegada do terror dos grandes expurgos do final dos anos 1930 e consolida o stalinismo como a nova forma do regime.

É importante sempre deixar claro, para evitar reduções interpretativas folhetinescas que abastecem esses programas sensacionalistas do History Chanel sobre “os grandes ditadores do século XX”, que Stálin não inventou o stalinismo sozinho. Ele foi o articulador que configurou, como forma de poder, uma série de tendências inerentes tanto ao modelo bolchevique, quanto à tradição política e cultural russa.

Ora, se Lênin tinha origens familiares em uma minoria intelectualizada e cosmopolita, de ascendência judaica-alemã por parte da mãe, e era filho de um professor que prezava bastante a cultura científica e laica, cara aos positivistas do século XIX; Stálin, por sua vez, emergiu da Georgia russa, região arcaica, marcada por ressentimentos nacionalistas e fantasmas de uma religiosidade medieval.

Quando jovem, Stálin estudou no seminário de Tiflis, dirigido por sacerdotes ortodoxos russos que tratavam os alunos georgianos como escória, cidadãos de segunda classe, de maneira que se costumava a dizer, que nenhuma escola laica do Império Russo produzia tantos ateus quanto o seminário cristão de Tiflis.

Reprodução do quadro “The Unity of the Russian People”, de Mikhail Khmelko (1948)

Ecos de religiosidade orgânica

Apesar disso, Stálin parece nunca ter perdido o contato com o modelo rígido do seminário em suas práticas e ações políticas. Seu modelo de atuação era muito mais militarista, cercado de ecos de uma rígida religiosidade orgânica do que o padrão romântico de inspiração jacobina, que Trotsky usava para agitar as massas e  mobilizar o Exército Vermelho no tempo da guerra civil.

Em 1921 Stálin chegou a comparar os bolcheviques aos “monges guerreiros” (Schwertbrüder) uma ordem militar criada pelo bispo da Levônia, no Báltico, para converter pagãos eslavos em cristãos praticantes. Esse parece ter sido sempre o modelo de militante partidário que Stálin tinha em mente.

Uma imagem muito mais ligada aos nobres guerreiros representados no filme de 1938, Alexander Nevsky, dirigido por Serguei Eisenstein, do que aos estudantes radicais, intelectuais militantes ou operários vinculados a ligas proletárias que fomentaram movimentos políticos de esquerda no século XIX e se tornaram personagens de Emile Zolá ou Fiodor Dostoiesvisk.

Por isso o stalinismo não pode ser entendido sem o paradoxo de que ele é radicalmente modernista no sentido de buscar implementar o avanço tecnológico e econômico das forças produtivas por cima de pau, pedra e ossos de milhares de trabalhadores mortos; e ao mesmo tempo é absolutamente conservador e anti-moderno no que diz respeito aos padrões estéticos e aos valores sociais e morais dos russos.

A ideia era que, se o coletivismo mecanizado ocuparia o lugar da personalidade individual no sistema produtivo, para forçar um grande salto de desenvolvimento industrial e retirar a Rússia do atraso feudal, isso deveria ser compensado com uma política cultural que se baseasse em uma reação a ameaça modernista, que poderia esvaziar o vigor da alma do povo russo. 


Vladimir Vladimirovitch Maiakovski(1893-1937) 

O Grande Retrocesso e o desmantelamento da vanguarda estética

Desse modo o padrão artístico passava a ser o da busca de uma volta a um estilo mais afeito a um gosto do russo médio e a elementos tradicionais da cultura popular russa.

Stálin protagonizou uma reintrodução massiva da herança cultural da música clássica russa e transformou Púchkin, o intérprete do romantismo conservador dos tempos do império, num ícone da cultura soviética.

Se a velha mãe Rússia feudal, (de onde Stálin queria se afastar economicamente, mas que insistia em permanecer culturalmente vinculado) era um espaço orgânico e caótico, mantida unida pela mão de ferro de uma aristocracia impiedosa, o único modelo de governante que ele poderia se fiar para criar a nova mãe Rússia moderna, seria o do Czar Ivã IV (1530 – 1585), apelidado, não sem mérito, de: O Terrível.

Então é fácil entender porque Maiakóvski estava tão pessimista com os rumos da revolução em 1929.

Como um forte adepto das vanguardas formalistas que agitaram o cenário artístico do país nas décadas de 1910 e 1920, defensor vigoroso da chamada “arte de esquerda”, Maiakóvski, militante de primeira hora da revolução, sentiu o golpe ao perceber o desmantelamento das vanguardas estéticas e da grade experimentação comportamental e sexual que se seguiu aos primeiros anos de agitação revolucionária.

O poeta, antena da raça, sente muito mais fortemente a reação conservadora que anteciparia o ambiente da política cultural stalinista.

No fim, Stálin, o mais radical dentre os líderes comunistas no que dizia respeito a modernização industrial, passava também a ser o mais radical entre os velhos bolcheviques a abraçar a hierarquia, os símbolos nacionalistas e a moral do antigo regime czarista.

“Quando vocês foram congelados?”

É justamente por isso que a fala final de Prissípkin, amante da música, da vodka, das mulheres e da boemia, como o próprio Maiakóvisk foi, soa tão trágica e profética.

De dentro da sua jaula, junto com seu percevejo, sendo observado pelo público que o visita no zoológico, Prissípkin grita:

“Cidadãos! Meu povo! Meus irmãos! De onde vocês vieram? Vocês são tantos. Quando vocês foram descongelados? Por que eu estou sozinho aqui na jaula? Meus amigos, meus irmãos venham comigo! Por que estou sofrendo tudo isso? Camaradas!…”. 

Após sofrer ataques de jovens estudantes que criticavam seus poemas vanguardistas, considerados pelo novo padrão de excelência estética “incompreensíveis para as massas” e cheios de “palavras indecentes”; deprimido pelos constantes problemas na garganta que o impediam de falar em público – o que era particularmente terrível para um poeta profundamente marcado pela oralidade e cuja ação política era vinculada a declamação de seus poemas – devastado pelo fim de um relacionamento amoroso que mantinha com uma mulher casada, Maiakóvisk não esperou para ver o grande retrocesso cultural do stalinismo se transformar no grande terror que marcou o fim da experiência revolucionária russa.

No dia 14 de Abril de 1930, aos 37 anos, o poeta se suicida com um tiro no peito. Antes disso, entre os meses de Dezembro de 1929 e 1930, escreve seu poema testamento, intitulado “A plenos pulmões”.

Destinado aos camaradas futuros, e removendo a merda fóssil daquele presente insuportável, Maiakóvski termina o poema a plenos pulmões dando o seu recado pra história.

“Ao comitê Central

                                               do futuro

                                                               ofuscante,

sobre a malta

                                               dos vates

                                                               velhacos e falsários,

apresento

                               em lugar

                                               do registro partidário

todos

                os cem tomos

                                               dos meus livros militantes.”

(Tradução de Haroldo de Campos) 

Escritor, dramaturgo, professor de filosofia e direito do IFRN. [ Ver todos os artigos ]

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