Viver é muito perigoso

Grande Sertão: Veredas é uma obra primorosa de Guimarães Rosa e narra, em primeira pessoa, a vida do jagunço Riobaldo. É um livro belíssimo, de uma prosa poética rica e, sobretudo, inusitada.

Ao longo das páginas, deparamo-nos com a distensão da palavras, sua reinvenção, o avesso do avesso do avesso da linguagem; aqui se lapidam os regionalismos do grande sertão, arcaísmos e o modo de viver a língua pelos jagunços do norte do interior de Minas Gerais.

Todavia, diria que essa construção invulgar das palavras contém também uma assinatura: o autor cria um mundo novo e místico que não se resume à região e à época, mas que faz parte do estilo do próprio Guimarães.

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Particularmente, não foi uma leitura fácil, as primeiras páginas nos causam um susto devido à experiência nova que nos concede; no entanto, foi uma das mais enriquecedoras da minha vida enquanto leitor – ao lado do singular, este livro aborda dilemas existenciais e os paradoxos inerentes ao permanecer vivo no mundo.

Segundo Riobaldo, “viver é muito perigoso; e não é não” e “todo amor nasce arrependido”, apesar de que o amor é também “a gente querendo achar o que é da gente”.

Aliás, algo que me conquistou no livro foram principalmente esses momentos de refinada beleza, surgidos imprevisivelmente e com o poder de surpreender, positivamente, o leitor.

Livro gera espanto a cada releitura

João Guimarães Rosa (Cordisburgo27 de junho de 1908 — Rio de Janeiro19 de novembro de 1967)

Penso, além disso, que existe uma linguagem universal e ela reside em conflitos muito humanos: o amor por Diadorim, seus arrebatamentos e a vontade de reprimi-lo, as decisões difíceis enquanto jagunço e a constante disputa interna entre Deus e o Demônio, a fé e os seus questionamentos.

Viver é mesmo muito perigoso, é difícil passar pelos nossos sertões, não se encantar com o mundo e não sofrer, por mais estranho que seja, com tanto encantamento. As contradições nos permeiam e “o que a vida quer da gente é coragem”.

Tenho a segurança de que Grande Sertão: Veredas é uma obra que, a cada releitura, gerará novos espantos. Viver é também se espantar. Ainda bem.

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