Gregório de Mattos Guerra

III – O livro como objeto do desejo

Chega em minhas mãos o 25º lançamento da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, o belíssimo livro Gregório de Mattos Guerra – Poemas Selecionado. Como sempre um livro muito bem cuidado e ilustrado. Um objeto do Desejo. Acompanha essa edição os desenhos primorosos do também baiano Sante Scaldaferri.

Gregório de Mattos ( 1636 – 1695) foi o nosso primeiro grande poeta. Um poeta maldito, cognominado o “Boca do Inferno”. A primeira referencia brasileira ao Quixote encontra-se em “de Mattos” quando ele descreve num poema “ as festas a cavalo que se fizeram em louvor das onze mil virgens’.

[…]

Uma aguilhada por lança / trabalhava a meio trote, / qual moço de Dom Quixote, / A quem chamo Sancho Pança:

[…]

No livro da Confraria foi selecionado o “Soneto” abaixo com um belo jogo de palavras e assonâncias: “Ângela” = “Angélica” = “Anjo”; “flor” = “florente”.

Rompe o poeta com a primeira impaciência querendo declarar-se e temendo perder por ousado

Soneto

Anjo no nome, Angélica na cara!
Isso é ser flor e Anjo juntamente:
Ser Angélica flor e Anjo florente,
Em quem, senão em vós, se uniformara:

Quem vira uma tal flor que a não cortara
De verde pé, da rama florescente;
E quem um Anjo vira tão luzente
Que por seu Deus o não idolatrara?

Se pois como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu Custódio e a minha guarda,
Livrara eu de diabólicos azares.

Mas vejo, que por bela, e por galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo que me tenta, e não me guarda.

Toda a jocosidade do poeta pode ser apreciada na “Décima” seguinte. Poema cuja autoria foi questionada, assim como outros poemas do “Boca do Inferno” dispersos e reunidos posteriormente à sua morte.

A UM LIVREIRO QUE HAVIA COMIDO UM CANTEIRO DE ALFACES COM VINAGRE

DÉCIMA

Levou um livreiro a dente
de alface todo um canteiro,
e comeu, sendo livreiro,
desencadernadamente.
Porém, eu digo que mente
a quem disso o quer taxar;
antes é para notar
que trabalhou como um mouro,
pois meter folhas no couro
também é encadernar.

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