Guardanapos de papel seda – um lembrança real sobre uma grande estrela

Saímos de Fortaleza rumo à Viçosa do Ceará numa van. Eu não lembro o ano. Mas já se ajuntam nos ponteiros do tempo coisa para mais de dez anos, com certeza!

Éramos uns três ou quatro jornalistas da região Nordeste, convidados para participar do Festival Música da Ibiapaba, um evento que até então eu não tinha ideia do quão difícil seria descrevê-lo em palavras, uma vez que nem sempre é possível alcançar na fala ou na escrita o que a música é capaz de nos arrebatar. Além de nós, sentada no lugar onde menos chacoalhava – “exigência” dela – estava uma senhora baixinha, que quando sorria amiudava o olhar e que era a responsável por abrir o Festival. Ela era a convidada que se apresentaria em praça pública no dia seguinte: era Miucha.

Pois bem, também quando entrei naquela van, não fazia ideia dos presentes que ganharia ao longo dos cinco dias em que passei por lá. O Festival MI – como agora é chamado – acontece naquela cidade serrana, num friozinho gostoso e que exala música por todos os cantos. Não é exagero dizer que até os passarinhos silenciavam para ouvir as flautas bailando suas notas no vento. Eles se enfileiravam nos fios dos postes e, atônitos, formavam a plateia mais sublime que um músico pode ter.

Escolas, praças e até mesmo casas são tomadas por músicos, aprendizes, estudantes, integrantes de bandas do Brasil inteiro que vêm ter, conhecer e aprender com os grandes mestres. Nos dias em que fiquei lá, dei de cara com o saudoso Manoca, que era um dos convidados para falar de sua maestria. Quando nos reconhecemos, ele me olhou com aqueles olhos de familiaridade, sabe? Aquele do tipo “ei, eu te conheço, você é lá de Natal”. Foi um desses olhares que a gente nunca esquece.

Mas enfim, os quase 350 quilômetros que separam a capital cearense até nosso destino nos obrigou a algumas paradas estratégica em lanchonetes e postos de gasolina no meio da estrada. Naquele momento, Miucha já se mostrava super interessada em saber um pouco mais sobre nossos costumes, nosso jeito de falar, nossa comida. E eu já estava completamente convencida de que ela não tinha feito “exigência” alguma para sentar no melhor lugar. Decerto, com a sua voz suave e uma simplicidade nobilíssima, ela pediu ou alguém da produção ofereceu-lhe, merecidamente, o melhor lugar na van.

Quando chegamos ao primeiro boteco onde podíamos ir ao banheiro, claro que cedemos a vez a ela. E tão logo ela retorna, ela retira umas duas ou três folhas do guardanapo de papel posto à mesa, me entrega e diz: “leva, porque no banheiro não tem papel higiênico”. Era um gesto maternal. A mãe da Bebel Gilberto estava sendo maternal comigo.

Aliás, quando tivemos a oportunidade de sentar e conversar no meio do pátio do hotel onde ela ficou hospedada, dois dias depois daquela nossa viagem que para mim se tornou inesquecível, inclusive, porque tive a chance de conhecê-la um pouquinho de perto e de ouvir-lhe algumas histórias, fiquei sabendo que essa coisa de ser citada ou conhecida como a “irmã do Chico”, ou a “ex-mulher do João Gilberto” não a incomodava mais. Mas, em sendo a irmã mais velha, em tendo aprendido a tocar violão (“com o Vinícius”) e a cantar primeiro que o irmão, é claro que foi preciso um tempo para entender e superar as inevitáveis comparações entre ambos.

Da relação com o pai de sua filha ela falou com muito respeito. Lembro-me que ela disse que era bem jovem, tinha ido estudar História da Arte em Paris e numa dessas coisas que o destino reserva de surpresa, conheceu na Europa, “o João”, que estava separado, mas ainda casado. Eles se apaixonaram perdidamente e ela foi morar com ele no apartamento em Nova York, contrariando no primeiro momento, as expectativas da família para seu futuro. A conversa foi longa, foi boa e eu lembro de me angustiar bastante porque sabia que por mais que eu escrevesse páginas e páginas no Diário de Natal, sobre o Festival e sobre Miúcha, talvez eu não conseguisse traduzir tudo o que sentira e vira naqueles dias. E terei de conviver com essa sensação, porque ela faz parte do ofício de ser jornalista.

Ao assistir Miucha no palco principal do Festival MI, no dia da abertura, eu entendi o significado da palavra “domínio de palco”. Porque embora fosse a mesma pessoa que estivera sentada ao nosso lado na van e que me deu guardanapos de papel seda para eu levar ao banheiro, alie ela era uma outra pessoa. Era uma luz, uma segurança, uma voz e um sorrisinho apertado nos olhos que a diferenciava da imensidão de pessoas que estavam ali, deslumbradas e coletivamente gratas pela vida e por existir dentro dela, música.

Para saber mais sobre o Festival Mi

Jornalista formada pela UFRN desde 2000. Trabalhou em veículos como Diário de Natal, Mult TV!, Novo Jornal, Tribuna do Norte e em assessorias de comunicação e imprensa política durante muitos anos. Em 2013 lançou pelo Caravela Selo Cultural o ensaio biográfico, "Navarro - um anjo feito sereno", editado em 2014 pela Edufrn. Atualmente é jornalista free-lancer. Fanpage: bichoesquisito; insta @bicho_esquisito [ Ver todos os artigos ]

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