Guerras Culturais

Por Umberto Eco
The New York Times/UOL

Enquanto discutiam o novo livro de Frédéric Martel, “Mainstream”, em uma edição recente do jornal italiano “La Repubblica”, Angelo Aquaro e Marc Augé retornaram a uma questão que desponta com muita frequência, mas sempre por novos ângulos –a distinção entre alta e baixa cultura. É claro, um jovem que atualmente escuta indiscriminadamente Mozart e música folk pode considerar isso irrelevante. Mas vale a pena apontar que o assunto era quentíssimo há meio século. Em 1960, o crítico cultural americano Dwight Macdonald escreveu um ótimo ensaio intitulado “Cultura de Massa e Cultura Média”, no qual identificava não apenas dois, mas três níveis de cultura.

Macdonald argumentava que Joyce, Picasso e Stravinsky representavam a alta cultura, enquanto os filmes contemporâneos de Hollywood, o rock e as capas da revista “The Saturday Evening Post” (muitas de autoria do pintor americano Norman Rockwell), definiam a “cultura de massa”. Mas Macdonald também identificou um terceiro nível cultural, a “cultura média”, que ele associou aos produtos de entretenimento que tomavam emprestado alguns estilos da vanguarda, apesar de permanecerem basicamente kitsch. Entre os exemplos passados de cultura média, Macdonald listou a obra do pintor vitoriano nascido na Holanda, sir Lawrence Alma-Tadema, e o dramaturgo francês da virada do século, Edmond Rostand. Quanto aos artistas de cultura média de seu próprio tempo, Macdonald apontava para Ernest Hemingway em seu período final e o autor americano Thornton Wilder, cuja peça de 1938, “Nossa Cidade”, ganhou o Prêmio Pulitzer. Muito provavelmente, Macdonald poderia ter acrescentado W. Somerset Maugham, Sándor Márai da Hungria e o sublime e prolífico romancista de origem belga, Georges-Joseph-Christian Simenon. (Macdonald teria classificado os romances de detetive de Simenon, contendo o inspetor de polícia Jules Maigret, como cultura de massa, e as obras de Simenon sem Maigret com sendo cultura média.)

A divisão entre cultura popular e alta cultura não é tão antiga quanto as pessoas pensam. Augé cita no La Repubblica o funeral do autor francês Victor Hugo, que contou com a presença de centenas de milhares de pessoas (a obra de Hugo era cultura média ou alta?), enquanto as tragédias de Sófocles eram desfrutadas até mesmo pelos vendedores de peixe de Pireu. Assim que foi lançado, o romance de Alessandro Manzoni do início do século 19, “Os Noivos”, teve várias edições, um sinal claro de sua popularidade. E não vamos esquecer da famosa história do ferreiro cantor, que misturava os versos dos poemas de Dante, o que enfurecia o poeta, mas também revelava que até mesmo os iletrados conheciam sua obra.

É verdade, na Roma antiga as pessoas abandonavam as apresentações das peças de Terêncio para ir ao circo e assistir aos ursos. Mas mesmo em nossos tempos, intelectuais de renome já deixaram de ir a concertos para assistir a um jogo de futebol. O fato é que a distinção entre dois (ou três) níveis de cultura geralmente fica clara apenas quando a vanguarda histórica provoca deliberadamente a burguesia ao celebrar a não clareza ou a rejeição de uma apresentação como valores artísticos.

Esta ruptura entre alta e baixa cultura aconteceu em nossos tempos? Não. Compositores clássicos do século 20, como Luciano Berio e Henri Pousseur, levavam o rock muito a sério, e muitos músicos de rock sabem mais sobre música clássica do que alguém pensaria. O estouro da pop art na metade do século subverteu as hierarquias culturais tradicionais: hoje, o prêmio por ilegibilidade vai para algumas histórias em quadrinhos extremamente obscuras (o que atualmente chamamos de “graphic novels” (romances gráficos)), enquanto muitas trilhas sonoras de filmes spaghetti Western são consideradas música de concerto. Hoje, basta você assistir a um leilão televisionado para testemunhar pessoas que alguns chamariam de “não sofisticadas” (no meu entender, qualquer pessoa comprando uma pintura pela televisão não é membro da elite cultural) comprando telas abstratas, de alta arte, que seus pais teriam desdenhado como pinturas pintadas pelo rabo de uma mula. Como colocou Augé: “Entre a alta cultura e a cultura de massa sempre há uma troca subterrânea, e com muita frequência a segunda alimenta a riqueza da primeira” (e, eu acrescentaria, vice-versa).

No mínimo, a distinção moderna entre os níveis culturais mudaram de um foco no conteúdo ou forma de uma certa obra para o modo com que ela é desfrutada. Em outras palavras, não há mais diferença entre Beethoven e “Jingle Bells”. A música de Beethoven, que atualmente foi reimaginada como muzak de elevador e uma série de ring tones, é desfrutada sem a atenção consciente do ouvinte (como o crítico cultura Walter Benjamin teria colocado), e portanto passa a lembrar um jingle publicitário. Por outro lado, um jingle criado para uma propaganda de detergente pode se tornar tema de análise crítica, e ser apreciado por seus aspectos rítmicos, melódicos e harmônicos.

Mais do que a obra de arte em si, o que mudou é nossa abordagem em relação a ela. Aqueles com um ouvido desatento podem escutar Wagner como uma trilha sonora de um reality show, enquanto aqueles com gostos mais refinados podem se recostar e desfrutar de “Tristão e Isolda” por seus méritos próprios, mesmo em ancestrais discos de vinil.

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