Gullar escreve sobre Clarice

Em 2004, o IMS (Instituto Moreira Salles) publicou um volume duplo CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA dedicado à escritora, e, entre seus destaques, encontra-se o testemunho do poeta e crítico de arte Ferreira Gullar.

“Encontrei-me pela primeira vez com Clarice Lispector, certa tarde de sábado, em 1955 talvez, numa reunião de amigos na casa da artista plástica Zélia Salgado, em Ipanema. Cinco anos antes, ainda em São Luís do Maranhão, havia lido o seu romance O lustre, que me deixara bastante impressionado, por sua estranheza e densidade poética. Mais tarde ouvira referências a seu livro de estreia, Perto do coração selvagem, que ainda não lera. Ao vê-la, levei um choque: os seus olhos amendoados e verdes, as maçãs do rosto salientes, ela parecia uma loba – uma loba fascinante. Não tenho qualquer lembrança do que conversamos naquela ocasião, porém quase nada devo ter eu falado, a não ser talvez algumas palavras de elogio a sua literatura. Ela era afável e simples mas de pouco falar. Saí dali meio atordoado, com aquela imagem de loba na cabeça. Imaginei que, se voltasse a vê-la, iria me apaixonar por ela. Mas isto não aconteceu. Ela era casada com um diplomata e não morava no Brasil. Eu estava recém-casado e inteiramente entregue a meu impasse poético.

Havia publicado, em 1954, A luta corporal, livro que se encerrou com a implosão da linguagem e me deixou sem caminho. Datam desta época minhas primeiras experiências de poesia concreta, movimento que encontraria seu porta-voz no “Suplemento Dominical” do Jornal do Brasil, a partir de 1956. Pois foi exatamente ali, na redação do SDJB, que mais tarde voltaria a encontrar-me com Clarice. Ela estava de férias no Rio e fora ao jornal a convite de Reynaldo Jardim, diretor do suplemento. O efeito do nosso primeiro encontro não se repetiu mas, em compensação, ela agora estava mais conversadora e expansiva. Fez ainda duas ou três visitas e sumiu de novo de minha vista, agora por muitos e muitos anos.

No curso desses anos, minha vida mudou muito. Em 1961 dei por encerrada minha experiência como poeta de vanguarda e me engajei na luta política pela transformação da sociedade brasileira. Entrei para o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes, escrevi poemas de cordel subversivos e, quando adveio o golpe militar de 1964, respondi a um inquérito policial-militar. Com o agravamento da situação política e a atuação crescente contra a ditadura, fui preso e, pouco depois, obrigado a optar pela clandestinidade e pelo exílio. Voltei ao Brasil em março de 1977, respaldado pela repercussão do Poema sujo, escrito em Buenos Aires.

Pouco depois de meu regresso recebo um telefonema de Clarice: queria entrevistar-me para a página que assinava na revista Fatos & Fotos. Aceitei com satisfação e marcamos para nos encontrarmos em seu apartamento, no Leme. A esta altura, a mulher de 30 anos que eu conhecera naquela tarde de sábado era agora uma senhora de 52 anos, marcada pelo sofrimento e por um acidente com fogo que quase lhe inutilizara uma das mãos. Mas continuava encantadora.

Ela me recebeu afetuosamente e por um momento falamos do passado. Foi quando não resisti e confessei-lhe:

– Lembra-se de nosso primeiro encontro na casa da Zélia?

– Claro que me lembro. Você me pareceu selvagem e estranho.

– Então vou lhe contar uma coisa… Levei um impacto quando te vi, quase me apaixonei. Você era muito linda.

Ela sorriu lisonjeada. Fixou seus olhos nos meus e falou:

– Quer dizer que eu era linda. Não sou mais.

– Nada disso, respondi perturbado, nada disso. Você continua encantadora.

– Acha mesmo? – perguntou ela como que brincando.

– Claro que acho, respondi no mesmo tom.

Rimos e ficamos olhando um para o outro.

– Gosto de teus olhos – disse-me ela. São bondosos…

Neste momento, ela apagou o cigarro num cinzeiro cheio de baganas que estava sobre uma mesinha ao lado da poltrona. Seu cachorro Ulisses aproximou-se e tentou apanhar uma das baganas com a boca. – Sai, ordenou ela ao cachorro. E voltando-se para mim: ele tem mania de ser gente. (E ao animal) – Vai, vai ser cachorro!

Terminada a entrevista, ela me deu um exemplar de seu livro Água viva, com uma dedicatória carinhosa, e nos despedimos. À noite ela telefonou para minha casa, queria esclarecer um detalhe da entrevista. No dia seguinte, pela manhã, ligou de novo, só para conversar. Na semana seguinte, ela ligou outra vez para me dizer que a reportagem havia sido publicada e sugeriu que jantássemos juntos. À noite fui buscá-la em casa e a encontrei preocupada com um de seus filhos. Sentia-se culpada por ser ele tão problemático.

– Ninguém é onipotente – disse-lhe eu. Você decidiu qual seria a cor dos olhos dele?

Ela se sentiu mais confortada, trocou de roupa e fomos jantar no Fiorentina, ali mesmo no Leme, perto de sua casa. Estávamos jantando, quando apareceu Glauber Rocha, sentou-se à nossa mesa e começou com uma conversa maluca, elogiando a ditadura militar. Eu reagi num primeiro momento; depois me controlei e mudei de assunto. Ele, então, decidiu retirar-se, mas reafirmando suas opiniões.

– Tome cuidado com ele, disse-me Clarice. Ele veio aqui para te provocar.

– Não é isso não, Clarice. Glauber anda meio desnorteado.

O próximo encontro foi no apartamento dela, numa tarde de domingo com a presença de alguns amigos, entre os quais Rubem Fonseca e Fauzi Arap. Logo depois, ela adoeceu, mas só soube quando li em algum lugar que ela estava internada numa clínica no Jardim Botânico. Não dizia o nome da clínica. Tentei localizá-la mas, quando consegui, ela já tinha sido transferida para o Hospital da Lagoa. Telefonei para lá e pedi que ligassem para o seu quarto. Quem atendeu foi Olga Borelli, que lhe servia de acompanhante. Disse que queria visitá-la e marcamos para a manhã do dia seguinte, no entanto, ao chegar no jornal aquela tarde, havia um recado para mim: “Clarice pede que você não vá visitá-la amanhã. Prefere que vá vê-la quando ela voltar para casa”. Ela nunca voltou para casa. Dias depois, pela manhã, estou me aprontando para uma viagem a São Paulo, quando soa o telefone. Atendo: “Clarice morreu”, disse a voz. “O enterro será hoje mesmo de manhã”. Fiquei desesperado, não podia adiar a viagem. A caminho do aeroporto só penso nela, comovido. Na manhã linda e iluminada, as árvores balançavam seus ramos naturalmente, como se ela não tivesse morrido. O mundo não precisa de nós, disse a mim mesmo – e o poema veio pronto:

Enquanto te enterravam no cemitério judeu de São Francisco Xavier(e o clarão do teu olhar soterrado resistindo ainda) o táxi corria comigo à beira da Lagoa na direção de Botafogo. E as pedras e as nuvens e as árvores no vento mostravam alegremente que não dependem de nós. Durante muito tempo, guardei comigo a pergunta: por que ela não me deixou ir vê-la no hospital?

– Ela não queria que você a visse feia, explicou-me uma amiga.”

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