Sobre amores na adolescência: Ah, Axl Rose!

Acredito que todo mundo já teve um amor de adolescência. Aquela/e artista famosa/o que a gente sonhava em conhecer. Aquele amor platônico. O meu era Axl Rose, do Guns N’ Roses. Lembro que eu tinha várias revistas e posters do cantor e dormia abraçada a ele. Certa vez, ao acordar, percebi que havia feito xixi na rede. Fiquei desesperada. O poster amanheceu aos pedaços, mas eu não contei conversa, desamassei pedacinho por pedacinho e colei tudo com durex. Estava inteiro, o coitado, ou quase isso.

Mas o que de fato me peguei pensando esses dias, foi sobre meus objetivos amorosos na época. Pra começar, o meu ideal de príncipe encantado era um homem cis, branco, loiro e de olhos azuis. Não me lembro de ter me apaixonado por Ray Charles ou Miles Davis, artistas magníficos e negros. O racismo jamais permitiria isso.

Outra coisa era meu sonho de casamento. Ah, o que eu mais queria na vida era casar! Aos 11 ou 12 anos eu não pensava em me formar, construir uma carreira e ser bem sucedida. Ainda que fosse esse o discurso da minha mãe. “Estude e seja independente, minha filha”, dizia minha mãe. Não, eu queria casar! Quantas de nós embarcou em um casamento falido, que desde o início do namoro já dava sinais de ser um relacionamento tóxico, mas segurou firme ali porque a sociedade não tolerava (tolera hoje?) mulheres solteiras ou divorciadas?

Uma outra problemática do meu sonho amoroso era talvez o mais cruel. Eu lia com frequência os noticiários sobre o cantor e, volta e meia, sabia dos absurdos da sua conduta, que iam desde bater em mulheres ao alcoolismo. O cara se aproveitava da fama para passar por cima de todo mundo. Típico de pop star branco. Mas o mais preocupante é que na época eu repetia para mim mesma: “não tem problema; quando a gente se casar, eu conserto ele. Faço ele parar de beber e respeitar as pessoas’.

Que mania que a maioria das mulheres tem de achar que podem dar um jeito num cabra desses. A gente já entra na relação menos como mulher e mais como mãe e psicóloga, acreditando que depois do casório as coisas serão diferentes, quando, no fundo, a gente sabe que o sujeito não vai mudar. Ninguém muda por causa de ninguém, e não é nossa obrigação resolver problemas dos outros. Ele que procure um terapeuta, ué!

No fim, a gente se vê presa em um relacionamento abusivo, sofrendo violência física, psicológica e emocional, e ainda mantem a esperança que, se rezar bastante, ele um dia vai mudar.

Sabe o que eu acho? Aquele xixi no poster foi um baita de um aviso. E quer um conselho? Quando o seu relacionamento estiver aos pedaços pelo xixi ácido de tudo que citei acima, não invente de remendar nada com durex. Vá até à banca mais próxima e permita-se ler outros tipos de revistas masculinas, femininas e dos mais variados gêneros que aparecem.

Africana em diáspora, educadora, escritora e pesquisadora. [ Ver todos os artigos ]

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