Günter Grass e os refugiados

Título original: Günter Grass critica hostilidade a refugiados em publicação póstuma

Por Dominik Sadowski
ILUSTRÍSSIMA – FSP

Durante grande parte de sua vida, Günter Grass encarnou a consciência moral da Alemanha, fazendo intervenções literárias sobre tudo, desde o sentimento de culpa do pós-Guerra até a discussão sobre Israel e Palestina. Parece que mesmo sua morte, em abril deste ano, não suavizou sua propensão a suscitar debates.

Em seu derradeiro livro, publicado na Alemanha no final de agosto, o romancista e poeta premiado com o Nobel lança um aviso do além-túmulo sobre a hostilidade crescente em relação aos refugiados. Um dos poemas de “Vonne Endlichkait” (sobre a finitude) lamenta que os alemães, que foram refugiados, eles próprios, no passado, agora manifestem em relação a refugiados o mesmo grau de intolerância com que eles próprios se depararam.

Em um poema intitulado “Xenófobo”, Grass escreve que milhões de alemães deslocados do centro-leste da Europa após o fim da Segunda Guerra Mundial foram recebidos aos gritos de “voltem para o lugar de onde vocês vieram!” quando tentaram se fixar em outras partes da Alemanha. “Mas eles ficaram”, prossegue o autor, e hoje manifestam a mesma rejeição contra estrangeiros vindos de mais longe.

O poema se encerra em tom esperançoso, sugerindo que haverá um momento em que aqueles “que sempre foram [alemães] nativos” acabarão por reconhecer sua própria estranheza em outros.

Com timing surpreendente, a obra póstuma de Grass foi lançada na mesma semana em que a Alemanha assistiu a uma discussão tensa sobre se os refugiados vindos do norte da África e dos Bálcãs devem ou não ser vistos na mesma categoria que os refugiados “alemães nativos”.

Em um programa de entrevistas no dia 27 de agosto, o conhecido colunista e blogueiro Sascha Lobo sugeriu que os refugiados (“Flüchtlinge”) sejam em vez disso descritos como “pessoas deslocadas” (“Vertriebene”). Um dos outros membros do grupo entrevistado, o ministro do Interior da Baviera, Joachim Hermann, qualificou a proposta como uma afronta.

Este ano a Alemanha assistiu a uma onda de ataques incendiários contra abrigos de refugiados. Nos 12 meses que se encerraram em junho deste ano o país recebeu 296.710 pedidos de asilo, mais que qualquer outro membro da União Europeia.

Mas a crise dos refugiados não é o único tema político tratado por Günter Grass em sua coletânea final de poemas e trechos em prosa, a maioria ilustrada com desenhos do próprio autor. “Mutti” é uma crítica irada da chanceler alemã, Angela Merkel, que “diz nada com muitas palavras” e é enredada por lobistas interessados em enriquecer e que “a chantageiam, como mafiosos”.

Grass, que em vida foi partidário ativo dos democratas sociais, lamenta o fato de seu partido ter formado uma coalizão com os democratas cristãos de Merkel. Ele escreve: “Ela é capaz de fazer isso com todos, até estarem totalmente sugados e pendurados num cabide, amassados ou inertes”.

Em “Sobre Transações Monetárias”, ele lança um olhar crítico sobre “malabaristas financeiros viciados em lucro”, mas também sobre os intelectuais públicos que se apressam a declarar uma era pós-monetária em que “castanhas” e “conchas” tomarão o lugar do dinheiro.

Grass observa ironicamente que, enquanto o papa Francisco pronuncia frases moralistas sobre o fim do dinheiro, a montanha da dívida cresce a cada hora que passa: “Algum dia em novembro ela vai estourar o teto do céu”.

Em outro texto curto, Grass lamenta o fato de a internet ter distanciado as pessoas dos problemas do mundo real. Ele escreve: “As bombas que explodem diariamente no Iraque e os corpos enfileirados sob lençóis são apenas faz deconta e cópias de jogos de computador reais; a cena do crime na Faixa de Gaza não passa de um engodo de jornais que arranca gargalhadas entre bilhões de usuários, mais uma tempestade de merda”.

Aos olhos de muitos alemães, o status de Günter Grass como consciência moral da nação foi enfraquecido quando, em 2006, ele reconheceu que, na adolescência, foi membro da Waffen SS, a ala armada da força paramilitar do partido nazista.

Se “Vonne Endlichkait” vem recebendo resenhas principalmente positivas até agora, é também porque o tom moralizador político é contrabalançado por reflexões mais pessoais sobre a mortalidade.

Há um poema sobre as dificuldades de Grass com um aparelho de surdez, reflexões sobre o som de seu próprio tossido e um texto em prosa sobre como Grass assusta seus netos com seu último dente real remanescente. O texto é ilustrado com um autorretrato como autor como espantalho.

Em um trecho muito franco, Grass converte o cachimbo que era sua marca registrada em símbolo da impotência na velhice, escrevendo: “Ando por aí com um cachimbo cheio, mas sem fósforos. Em outras palavras, minha virilidade, aquele velho abelhudo, entregou os pontos. Apenas o desejo ainda marca presença, ou faz de conta que sim”.

 

Tradução de CLARA ALLAIN

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