Há algo de podre no reino de Steve Jobs

Por Pedro Doria
Estado de S.Paulo

Algo não vai bem na cabeça de Steve Jobs. Se não corrigido, afetará diretamente nossa liberdade. O que Jobs traz de inovador para a tecnologia é estética – e estética é o tipo do conceito com muito mais níveis do que o primeiro olhar revela. De pronto, lá está beleza física. Seus produtos são bonitos. E esse é o elemento menos relevante dentre todos.

Com um quê mais de atenção se revela um toque de frugalidade. Os produtos são econômicos no número de botões e entradas, na quantidade de comandos – fazem muito com pouco, qualidade raríssima. Quem começa a usar um produto Apple logo percebe o terceiro nível estético: ordem. É ordem sutil. Aquilo que procuramos está sempre onde vamos buscar primeiro. Tudo simplesmente funciona e funciona de forma intuitiva.

A estética de Steve Jobs não é barroca. É Zen.

O resultado dessa estética se repete e se repete e se repete. O mouse já existia desde 1969. Mas só entre 1983 e 84, quando apareceu nos computadores da Apple, que o público percebeu-lhe a utilidade. Afinal, só quando a Apple tratou o mouse é que sua utilidade ficou clara. É a virtude da estética. Estética revela a utilidade.

Busque os dados de acesso por telefone celular do site aqui do Estado de S. Paulo, do New York Times ou do Guardian britânico. Em qualquer lugar do mundo os números estão lá: 75% do acesso via celular é com iPhone. Blackberry, Android do Google, Windows Phone, Palm ou Nokia dividem os outros 25%. Por quê? Porque usar a web nos outros é ruim.

E, afinal, Bill Gates tenta convencer o mundo de que tablets são úteis há mais de dez anos. Nunca colou. Jobs, para variar, chega atrasado com seu iPad e lá estão 3 milhões de aparelhos vendidos em 80 dias.

O iPad, assim como o iPhone o iPod, é uma plataforma fechada. Só entra conteúdo nele pelo iTunes, software da Apple. Só entra programa pela loja da Apple. E, como é a Apple que tem a chave, ela decide o que pode e o que não pode.

Nestes dias iniciais, já foram proibidos uma adaptação para quadrinhos do Ulysses de James Joyce, outra da Importância de ser Prudente de Oscar Wilde e a edição eletrônica do maior jornal alemão, o Bild.

Em todos os casos, o crime foi a nudez.

Numa troca de e-mails com um blogueiro, Jobs já havia deixado claro: no seu universo, estaremos “livres” da pornografia.

Gosto de Steve Jobs – mas a ideia de estar “livre” da pornografia me ofende. Na Inglaterra vitoriana, Oscar Wilde foi preso por ser homossexual e imoral. Joyce também já foi acusado de pornografia. Ulysses é uma das obras-primas do século 20. Pouquíssimos escritores foram inovadores do gênero, gente que percebeu que entre duas capas e algumas páginas era possível contar uma história de forma radicalmente diferente e ainda revelar algo de profundo sobre que é ser humano no caminho. Joyce está ali no panteão com Cervantes. Não é pouco. Mas havia um pênis miúdo e um seio com mamilo e isto foi demais para os censores da Apple.

Na Alemanha, as senhoras ficam nuas em pelo no parque para depois vestir o maiô grandalhão. Não é sexual. O mundo é bom assim: o que ofende aqui desperta um bocejo acolá. Dentre as culturas do ocidente, nenhuma é mais puritana que a dos EUA. E aí fica assustador – se a estética de Jobs escapar do desenho de produto e começar a ditar o conteúdo, empobreceremos todos. Porque não se trata apenas da nudez no Bild ou no Ulysses em quadrinhos. Há sexo explícito nas paredes dos prostíbulos de Pompeia – e aquilo é história. Até o sexo explícito de Jenna Jameson – esta sim, pornógrafa – diz algo a respeito de o que nossa sociedade é.

Ninguém deveria ser obrigado a ver. Tampouco deveria ser proibido. O problema da censura é que, mesmo quando começa aparentemente razoável, sempre termina nos calando a todos. Ditando o que podemos dizer. Ulysses e Wilde já foram liberados. Talvez tenha sido um soluço que passe. Mas o Bild ainda não pode mostrar suas moças de topless. Algo ainda vai mal no mundo do iPad.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo