O haicai guilhermino

Ontem se comemorou o Dia da Literatura Brasileira. Dentre tantos nomes que poderia aqui trazer, desde José de Alencar, que empresta o seu natalício para que este dia seja celebrado, passando por Machado de Assis que idealizou e fundou, nos idos de 1897, a Academia Brasileira de Letras, gostaria de pedir licença para homenagear o poeta paulista Guilherme de Almeida (1890 – 1969), devido a uma particularidade de sua produção: criou o que hoje chamamos de “haicai guilhermino”.

Os haicais guilherminos são uma variação criativa proposta pelo poeta, que pode ser caracterizada como uma espécie de incursão meio subversiva no cânone milenar oriental. Guilherme de Almeida inovou e trouxe grande contribuição a esse gênero, com achados poéticos que ficaram registrados indelevelmente na história da nossa literatura.

O haicai guilhermino guarda certa complexidade em sua arquitetura, pois o autor quis que os haicais, originalmente sem títulos e sem rimas, passassem a tê-los.

Continuou respeitando a estrutura da contagem métrica silábica 5-7-5, porém, estabeleceu o cânone de rimas da sétima sílaba métrica do primeiro verso com a sétima do terceiro verso, ambos pentassílabos. E no segundo verso (septissílabo), propôs uma rima interna, sendo da segunda sílaba com a sétima.

Dentro dessa estrutura, que se parece com uma camisa de força, o poeta transitou com desenvoltura, criatividade e um senso estético apurado, produção que marca a história literária e consagram o gênero de maneira a emular tantos outros que vêm seguindo seus passos.

Exemplos

Para se ter uma ideia da genialidade do autor, apresento alguns exemplos de haicais de sua  autoria:

N.W

Dilaceramentos.

Pois tem espinhos também

a rosa-dos-ventos.

OS ANDAIMES

Na gaiola cheia

(pedreiros e carpinteiros)

o dia gorjeia.

NÓS DOIS

Chão humilde. Então

riscou-a a sombra de um voo.

“Sou o céu.” – disse o chão.

HORA DE TER SAUDADE

                                                                        Houve aquele tempo…
                                                                        (E agora, que a chuva chora,

                                                                         ouve aquele tempo!)

QUIRIRI

Calor. Nos tapetes

tranquilos da noite, os grilos

fincam alfinetes.

Pela complexidade da estrutura criada por Guilherme de Almeida, poucos se arriscam a criar versos dentro desse gênero. Aqui, no estado potiguar, meu destaque vai para o poeta e acadêmico Jarbas Martins que vem se esmerando numa produção de boa qualidade dentro desse gênero. Vejam uma das suas produções, fiel ao cânone engendrado por Guilherme de Almeida:

A LUA DE FRENTE

Lua quase ausente.
Quase unha, testemunha.
A lua de frente.

Um outro poeta aqui do RN, que também se encantou com os haicais guilherminos, foi o areiabranquense Chico Alves D’Maria (autor do livro de poemas “Ancoradouro” e do livro de prosa “Contos de Areia”), que lançou no início de abril, pela Sarau das Letras, o livro “Porto do Tempo”, que tem excelentes criações poéticas dentro deste gênero.

Tive a alegria de escrever o texto de orelha do livro, na qual explico o cânone do haicai guilhermino. O poeta, à medida que vai mostrando os haicais, cria um poema de verso livre decorrente da temática contida no guilhermino. Seguem-se três exemplos:

ARCO-ÍRIS

Vejo sete cores

da luz,  que do sol reluz

qual buquê de flores.

EQUILIBRISTA

Balançar a vida

no fio, tem desafio:

viver sem caída.

QUIMERAS

Com linhas etéreas,

cingidos sonhos tecidos

na antimatéria.

Detalhes poéticos

Inspirado no mestre Guilherme de Almeida, arrisquei-me também nesse gênero desafiante, pois o terceto, além de ter que se enquadrar na temática e na estrutura da métrica 5-7-5 (primeiro, segundo e terceiro versos, respectivamente), ainda tem que rimar o primeiro com o terceiro verso. Além disso, criar a rima interna no segundo verso.  

São detalhes poéticos que fazem a diferença e conferem um estilo peculiar aos tercetos. Contudo, não custa observar que, para se produzir um haicai de boa qualidade, não basta apenas seguir a técnica. É preciso conferir poeticidade, lograr o espanto, o encantamento e a leveza que um haicai solicita.

Deixo ao julgamento do leitor se consegui alcançar esse intento em quatro criações minhas, ainda inéditas em livro: 

PIRILAMPO

Noite se agiganta,
e pisca sua luz arisca,
magia que encanta.

SOLIDÃO

Contemplar a lua:

clarões, talvez ilusões

de saudade tua.

LAMENTO

Canta o azulão.
Deságua em mim suas mágoas,
ave coração.

RE_LEMBRANÇAS

Reflexos no lago.
Imagem tua ou miragem?
Saudades que trago.

Guilherme de Andrade de Almeida (1890-1969) foi jornalista, advogado, crítico, poeta e tradutor

Uma experiência: haicai guilhermino

Para encerrar este artigo, nada como conhecer o que disse o próprio Guilherme de Almeida, em 23 de fevereiro de 1937, referindo-se à sua proposta de haicai:

Compreende-se bem: trata-se ainda de uma experiência, mais nada. O que eu reclamo, para esses versos, não são as rugas fundas numa testa séria, para a sentença que absolve ou condena; mas as rugas leves nos cantos dos lábios espirituosos, para o sorriso que não absolve nem condena porque… porque o sorriso ainda é a única coisa, no mundo, que não pode ser ridículo.”

E mais um haicai do mestre Guilherme de Almeida, em metalinguagem:

O HAICAI

Lava, escorre, agita

A areia. E, enfim, na bateia

Fica uma pepita.

Além dessas pepitas guilherminas, fica também  o convite para que mais adeptos se arrisquem nesse milenar gênero que recebeu essa marca pessoal brasileira, numa ousadia que vem encantando e desafiando poetas ao longo dos tempos. Ainda hoje, e mais que nunca, a poesia é necessária.

Viva o Dia da Literatura Brasileira!


Jornalista, escritor e poeta. [ Ver todos os artigos ]

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