Handke no planetário

Por José Castello
A LITERATURA NA POLTRONA

No Rio, assisto a “Kaspar”, peça do austríaco Peter Handke em montagem dirigida por Evângelo Gasos. Trata-se do trabalho final de curso na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Fui ao teatro, admito, levado sobretudo por laços afetivos, já que Evângelo é marido de Rita Lemgruber, minha sobrinha e afilhada, que não só assina com ele a adaptação do texto de Kandke, como atua como atriz. Achei, como dizia, que só os laços de afeto me conduziam à platéia. Não sabia o que esperar do espetáculo a que ia assistir, mas isso, na verdade, era o que menos me importava. Mas que susto!

Com os amigos de minha geração, converso sempre sobre os limites de um mundo gerido pelo poder da imagem, imagens brutas, instantâneas, intercambiáveis, velozes. Grosso líquido de cores em que nos afundamos. Vivemos, meus amigos e eu, preocupados com o destino da palavra, e daquilo que ela sustenta: o sujeito falante. Sem palavras, somos reduzidos a objetos manipuláveis. Tragados pelo roldão das imagens, nossos limites individuais se liquefazem. Imprensados pelo turbilhão de imagens, perdemos as marcas particulares que nos fazem humanos.

Pois é dessa dificuldade extrema com as palavras que trata “Kaspar”. A peça de Handke nos mostra um personagem que tem que aprender tudo de novo. Que balbucia, rumina, gagueja, repete mecanicamente _ faz tudo aquilo que atribuímos, em geral, às crianças pequenas, aos infelizes e aos loucos. Mas como o Kaspar de Handke é atual! O avanço tecnológico (que é irreversível e é benéfico, enfatizo) carrega, contudo, uma contrapartida perigosa: desqualifica a palavra. Falar exige escolhas. Devo decidir perante as coisas mais elementares: se digo “esquerda”, ou “direita”, se prefiro “branco”, ou “negro”, se qualifico de “atraente”, ou “repulsivo”. Falar exige sempre.

Exige, portanto, o cuidado de si, pois a palavra é perigosa. Em um caderno de anotações, encontro uma definição que me ajuda:”O mundo pode ser definido como aquilo a que dedicamos nosso cuidado e nós podemos ser definidos como aquilo que dedica cuidado ao mundo”, diz Jonathan Rée, em um de seus ensaios sobre Martins Heidegger. A palavra não é binária: ou isso, ou aquilo. Ela é um estojo de paradoxos: carrega significados que lutam entre si, que se desmentem, que se alteram, que explodem. A palavra: o que podemos ter de mais valioso?

Em cena, Kaspar luta para cuidar de si. Cuidar de alguma coisa (aquilo que foi, aquilo que se tornou) e tomar cuidado com alguma coisa (aquilo que virá, o futuro inesperado). Sigo as ideias expostas por Rée em um pequeno ensaio sobre Heidegger publicado pela Editora da Unesp, no ano de 1999. Foi dele que arranquei as notas ainda hoje guardadas em meu caderno de bolso. São elas, treze anos depois da publicação brasileira, que vêm me falar aquilo que me falta. Que iluminam o impactante “Kaspár” de Evângelo a que assisti no Teatro do Planetário.

Trabalho de escola, quando poderei assisti-lo de novo? Tomara que isso seja possível. Mas “de escola”? Não, não é isso. Evângelo não é o “bom aluno”. Sua montagem, impecável e surpreendente, é porém desregrada. A interpretação de Matheus Lucena, o rapaz que vive Kaspar, é chocante. Ele faz de seu corpo um depositário de nosso gaguejar. Vivemos em um mundo que tornou as palavras perigosas. Câmeras escondidas, gravadores secretos, escutas policiais, fofocas, interrogatórios. Um mundo paranóico no qual a palavra se encolhe e, se resolve aparecer, é como um simples adorno. O adorno enfeita, mas não cuida. Ter um vaso grego no quarto não significa cuidar de si, e tampouco tomar mais cuidado com o que serei.

Já as palavras não, e Kaspar encarna isso com uma força irrecusável. As palavras cuidam do humano e o autenticam. Mas só valem (e essa parece ser a grande dificuldade do personagem de Handke) quando nós as arrancamos de dentro. Aí sim, cada palavra tem seu peso e carrega seu feixe paradoxal de significados. O oposto do que acontece as palavras amontoadoas nas bulas de remédio, nos relatórios empresariais, nos inventários, nas lições de escola, nos manuais de instrução, em que a palavra costuma ser mero instrumento (técnica). É onde Kaspar é fisgado: na ilusão de que a técnica basta. Contudo, algo dentro dele treme, sacondindo as coisas que diz e delas fazendo não repetição, mas expressão. Enquanto cuida de si, Kaspar desmente a si. Algo aparece à sua frente e o arrasta, algo que é ele mesmo.

Peter Handke sempre foi um de meus escritores favoritos. Depois de assistir ao “Kaspar” de Evângelo, dele me sinto ainda mais próximo. Que vontade de voltar a seus livros! De retornar a sua luta pela supremacia da palavra plena, ainda que ela se expresse em uma única sílaba. Handke expõe nossa fraqueza diante de um mundo no qual a técnica parece tomar nosso lugar. Nesse mundo que nos faz meors objetos, resta teimar e gaguejar, resta reapreender a falar.

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