Havana (re)descobre os Beatles

Por Damien Cave
DO “NEW YORK TIMES”, EM HAVANA
VIA FSP

The New York Times Os cabelos e sotaques estavam errados, mas a plateia só tinha interesse numa coisa: a banda da casa estava cantando Beatles, aqui em Cuba, em um bar novo chamado Yellow Submarine – em meados dos anos 1960, uma iniciativa desse tipo no país poderia ter acabado em prisões.

Melhor ainda: talvez em função dessa história, os integrantes da banda tocaram como rebeldes. Velozes e crus, eles passavam pelas linhas de baixo de “Dear Prudence” como se a canção fosse nova. Tocaram “Rocky Raccoon” em ritmo acelerado e, quando chegaram ao verso inicial de “Let It Be” –“when I find myself in times of trouble”–, a plateia inteira começou a cantar junto. As pessoas balançavam o corpo, olhavam fixamente para os músicos ou cantavam o refrão a plenos pulmões, com os olhos fechados em êxtase.

“Se não há Beatles, não há rock’n’roll”, disse Guille Vilar, um dos coproprietário do bar. “Isto é música autêntica.”

Pode ser, mas os revolucionários cubanos não souberam muito bem como interpretá-la quando ela foi lançada, tempos atrás. Hoje, os vínculos entre o rock de contracultura e a política de esquerda são plenamente conhecidos. Mas naquela época, as autoridades cubanas –ou algumas delas, pelo menos– enxergavam qualquer coisa em inglês como sendo americana e quase traiçoeira. Ao lado dos cabelos compridos, dos jeans boca de sino e da homossexualidade, os Beatles eram vistos como motivo de alarme ou prisão, em um tempo em que uniformes militares verdes representavam uma declaração solene.

Guille Vilar, musicólogo formado, comentou que Cuba nos anos 1960 e no início dos anos 1970 “era um lugar muito sério”.

NA SURDINA

Muitos cubanos ainda se lembram de ter de ouvir às escondidas qualquer álbum dos Beatles que conseguissem encontrar, no período que sucedeu à crise dos mísseis cubanos (1962) e ao embargo comercial americano. Festivais como Woodstock ou concertos de rock menores quase nunca aconteciam, fato que ajuda a explicar a atração exercida pelo Yellow Submarine contemporâneo.

Como bem sabem os vendedores de diamantes, a escassez está na origem do valor, e, em Cuba, a música rock é uma joia cultural rara. Mas por que justamente o Yellow Submarine, com suas guitarras, janelas em forma de vigias, interior azul e amarelo e letras dos Beatles nas paredes? A experiência aqui equivale a tomar uma estrada curta e direta para longe da normalidade do país.

Afinal, Cuba ainda é um país de mídia incipiente. A televisão tem poucos canais. A internet é acessada por conexões dial-up. E, embora a música pareça estar presente em todo lugar (clubes e bares incluídos), a maior parte dela ocupa o espectro estreito delimitado pelas baladas (trova) e pelo rebolante reggaeton.

“Este lugar é diferente”, disse Alexander Peña, estudante de fora de Havana que estava sentado no bar com três amigos.

Mesmo assim, o bar é inteiramente cubano. O Ministério da Cultura é proprietário e administrador do estabelecimento, aberto em março. Isso significa um couvert barato (US$ 2,50), imagens dos Beatles sem licenciamento oficial e garçons trajando os coletes pretos habituais -aos quais, como de praxe, é preciso fazer o pedido pelo menos três vezes antes que qualquer bebida seja servida de fato.

Vilar, que foi assessor do projeto, disse que o governo quis fazer a coisa certa: reabrir espaços fechados e ampliar as opções de vida noturna em Havana. Os frequentadores, em sua maioria, pareciam estar felizes. Contudo, era evidente que não se tratava de um grupo de bebedores de rum como outro qualquer.

ENCONTRO GERACIONAL

Num sábado recente, a fila de dezenas de pessoas que ia até a esquina dava a impressão de ser feita de gente a caminho de uma formatura universitária. Apenas dois grupos pareciam estar representados: os “baby boomers” (trajando vestidos bonitos ou calças sociais) e os jovens de 20 e poucos anos (de jeans e camisetas justas). Em alguns casos, representantes das duas alas chegavam juntos, e cada geração tinha sua razão própria para estar ali.

Os fãs mais velhos disseram que o Yellow Submarine lhes permitia curtir um momento que deveriam ter vivido décadas atrás. “Você não entende”, disse Marisa Valdes, 50 anos, enquanto dançava com o marido, depois de se fazer fotografar com imagens recortadas em madeira de John, Paul, George e Ringo. “Esta música era proibida!”

Para os jovens, porém, o Yellow Submarine oferecia o contrário: algo novo. Segundo alguns, a abertura do bar chegava a sugerir que o velho governo da ilha estaria aprendendo algumas manobras novas. “Talvez isso demonstre que as coisas em Cuba estão mudando”, disse Peña.

Mas, falando a sério, esqueçamos a seriedade por um instante. No interior do Yellow Submarine, com a música correndo solta, pensamentos desse tipo eram poucos. A diversão é um dos poucos luxos dos quais os cubanos não se desfizeram ao longo dos anos, e, quer seja salsa, quer seja rock, a dança quase sempre vem junto. Então, quando a banda começou a cantar “How could I dance with another/When I saw her standing there”, não foi exatamente preciso lançar mão de um esforço persuasivo para fazer as pessoas levantarem das cadeiras.

Marisa Valdes, em especial, pareceu gostar quando um casal jovem se levantou e começou a dançar o twist. Ele era alto, magro, barbudo e com pernas que pareciam feitas de borracha; ela tinha cabelos cacheados e usava um vestido branco bastante parecido com o de Valdes. A mulher mais velha ficou balançando a cabeça, enquanto a mais jovem sacudia os quadris. Na música e no estilo, na Havana de hoje e na do passado, as duas eram uma só.

Tradução de Clara Allain

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