Haverá luz no fim do Beco?

Foto: Canindé Soares (via Google)

Já há alguns meses, por motivos que desconheço (ou que até desconfio, mas também não me interessam), o jornalista Sérgio Vilar vem promovendo sistematicamente críticas e comentários acerca do Beco da Lama e de uma associação formada pelos frequentadores do local, a Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências (vulgo, Samba). A última delas resultou num longo texto, louvado como um tiro certeiro sobre a situação de penúria em que se encontra aquele pequeno reduto boêmio do Centro da cidade.

Esta longa batalha de um homem só contra esse moinho de vento chamado Samba me levou a algumas reflexões sobre o jornalismo cultural natalense e também sobre um assunto nebuloso meio em voga no momento, o “direito à cidade”.

Tratemos, então, do primeiro ponto. Já há algum tempo o jornalismo cultural potiguar sofre de inanição. Isso não significa que não tenhamos bons profissionais no batente. Na verdade, temos poucas redações em funcionamento, com pouquíssimos jornalistas especializados em cultura, lutando diariamente para publicar em espaços cada vez mais limitados (no caso dos impressos) e sob uma pressão por mais e mais conteúdo, independente da qualidade (no caso dos veículos eletrônicos – e quem sabe dos impressos também).

De modo que, não é de hoje, o jornalismo cultural potiguar esbarrou numa fórmula da busca pelo factual, sempre girando sobre os assuntos ou eventos do dia, que praticamente o fez abandonar um de seus principais papéis: o da crítica cultural.

Quero deixar claro que, neste texto, deixo de lado a atividade desenvolvida por colunistas ou blogueiros que eventualmente destilam seu veneno sobre um determinado estado de coisas (todo jornalismo dever ser, a priori, venenoso para alguém). Principalmente porque não existe a possibilidade de se tratar qualquer assunto com profundidade em textos de cinco linhas, a não ser que você seja algum filósofo chinês anterior à era cristã.

Não temos, hoje, jornalistas com a capacidade ou o espaço para publicar uma boa crítica literária, teatral, cinematográfica, sobre artes visuais ou dança. E, sobretudo, temos poucos jornalistas que discutam ou reflitam a cultura em si e as políticas públicas voltadas para este segmento.

Cometo propositalmente, no parágrafo anterior, duas injustiças, para agora corrigi-las. Na área da literatura, temos a presença constante de Nelson Patriota nas páginas da Tribuna do Norte. Os demais, incluindo aí Carlos de Souza (também atendendo pela alcunha de Carlão e, no meu caso, papai), Tácito Costa e novatos como Thiago Gonzaga e Chumbo Pinheiro (estes não são jornalistas, mas literatos e estudiosos), são apenas resenhistas que de vez em quando derrapam numa crítica mais torada no grosso.

E, no caso daquilo que chamei de crítica cultural, temos tão-somente Sérgio Vilar. Um bom exemplo disso é que quando a Tribuna resolveu publicar uma matéria sobre política cultural, ainda que em um tom mais de assessoria do que crítico, misteriosamente na semana seguinte o problema estava resolvido.

Isso, a meu ver, é péssimo. Não porque, sozinhas, essa vozes não possuam alguma repercussão. Pelo contrário. Isso é ruim porque, por exemplo, no caso de Nelson, essa voz tende a ser considerada monolítica, inequívoca, lapidar. E porque, no caso de Vilar, apesar de seu ótimo texto, ele embarca num opinionismo pouco fundamentado e costumeiramente tropeça num princípio fundamental do jornalismo: a checagem dos fatos.

A rinha de Sérgio Vilar com a Samba, por exemplo, é recheada de equívocos. Principalmente neste capítulo mais recente. Para entender meu ponto de vista, falemos, pois, da Samba.

A Sociedade de Amigos do Beco da Lama e Adjacências surgiu como uma reunião de boêmios interessados em promover festas num local do qual eram habituées. Ou seja, tudo não passava de uma bela e nobre desculpa para reunir uma penca de pinguços. Tudo bem que eram pinguços de estirpe e nobre raça, artistas, escritores, jornalistas e aderentes. Mas, ora bolas, pinguços. E, por favor, sem falso moralismo: antes de me mudar para João Pessoa, eu vivia lá no Beco da Lama.

O problema é que, com o tempo, aqueles que formam a Samba (a qual, como bom anarquista, nunca me associei – aliás, minto: na última campanha para filiação resolvi aderir por meros motivos esculhambativos) resolveram levar a entidade e a si mesmos muito a sério. Foi quando o negócio deu para degringolar.

Começou a surgir um calendário de eventos que só inflava ao longo dos anos e uma guerra de egos que, no final das contas, só serviu para demolir amizades e afastar os poucos e aguerridos bebuns que nutriam um afeto por aquele espaço geográfico. Adendo: Lembro que a última campanha realmente divertida para a Samba foi a disputa entre Alex Gurgel e Professor Bira (por onde andam? Um abraço pr’ocês). A disputa inclusive me rendeu uma boa reportagem ao estilo gonzo.

E aí se criou uma ilusão de que a Samba seria salvaguarda do Beco da Lama – e de suas adjacências. Lêdo e Mario engano Ivo. Resgatemos, pois, a premissa inicial do “direito à cidade”.

Ora, como o próprio Vilar aponta em seu artigo, existem no Beco e ‘adjacências’ vários comércios. Mas engana-se quem pense que estes comércios sejam apenas um enfileiramento de bares. Como em qualquer espaço no centro urbano pertencem ao Beco: restaurantes, papelarias, mercadinhos, sebos, barbearias e salões de beleza, academias de ginástica, lojas de departamento e o escambau. Além, claro, de seus clientes, frequentadores e meros transeuntes circulando pelo Centro de Natal.

Não é, não deve ser, nem nunca será responsabilidade da Samba manter vivo um espaço tão plural. O máximo que a entidade pode ser é uma porta-voz – mas não A porta-voz – daquele espaço. Todos os que citei anteriormente são responsáveis pela vida ou quase-morte do Beco da Lama, não apenas a Samba.

O Beco da Lama e Adjacências são um espaço público e, como tal, cabe ao poder público mantê-lo vivo, seja por interesse próprio, seja por pressão da sociedade. Seria bem mais interessante, e quem sabe mais produtivo, se Vilar (ou qualquer outro jornalista cultural da cidade) comprasse uma briga de gente grande com a Prefeitura de Natal e com Governo do Estado por uma revitalização daquele lugar. Afinal, não se trata de nosso Centro Histórico? Bater semanalmente num galeto já abatido, como a Samba, é não apenas inócuo, como chega a ser ridículo.

Por fim, diferente do que Vilar deixa subentendido, considero a vinda do IFRN para o Centro como uma das melhores coisas que poderiam ter acontecido para o bairro. Não existe uma concorrência da Samba com o IFRN pelo ‘privilégio’ de movimentar a vida cultural do bairro, até porque são duas entidades de natureza totalmente distintas.

A presença do IFRN no Centro é um exemplo do que uma entidade do poder público pode e deve fazer pelos espaços públicos de uma cidade. Apesar do inexplicável nome de ‘Espaço Cultural Ruy Pereira’, o fechamento de uma rua para a circulação de pessoas em vez de carros é algo para ser sempre comemorado, não desdenhado.

O fato de o IFRN ser uma ‘célula petista’ pouco importa para uma vitória como esta. Afinal, a única coisa que vejo os petistas fazendo por ali é ocupar uma vasta mesa no Bar do Zé Reeira. Aliás, vira e mexe esbarro com meus amigos do PSTU por lá. O pessoal de direita não deve aparecer porque deve se sentir mais à vontade em algum lugar mais à altura de seu poder aquisitivo e privilégios de classe.

O que realmente se deveria discutir, em relação ao ‘Espaço Cultural Ruy Pereira’, é a apropriação indevida que o Bar do Zé Reeira faz de um espaço que é, reforcemos, público, mas que acabou por se tornar, apenas, um repositório gratuito para as mesas e cadeiras de um único comerciante.

Ora, Zé Reeira apenas se aproveita (e com toda razão) de uma situação criada pelo próprio poder público, que não se preocupou em ordenar e racionalizar o uso de um espaço que deveria ser de todos. Talvez a Prefeitura, malandramente, espere que o IFRN bote moral no pedaço, porém esta não é uma responsabilidade do IFRN. O Instituto já faz muito mais que sua obrigação por aquele espaço.

Porém, mais uma vez, onde estão, na imprensa potiguar, aqueles com disposição de peitar os poderes constituídos e jogar essas (e outras) discussões para a ‘opinião pública’? Não os vejo. Talvez seja pelo 180 quilômetros que me separam da cidade.

Jornalista, com passagem por várias redações de Natal. Atualmente trabalha na UFPB, como editor de publicações. Também é pesquisador de HQs e participa da editora Marca de Fantasia, especializada em livros sobre o tema. Publicou os livros “Moacy Cirne: Paixão e Sedução nos Quadrinhos” (Sebo Vermelho) e “Moacy Cirne: O gênio criativo dos quadrinhos” (Marsupial – reedição revista e ampliada), além de várias antologias de artigos científicos e contos literários. É pai de Helena e Ulisses. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 14 comments for this article
  1. Lívio Oliveira 21 de Março de 2015 10:11

    Taí um texto porreta, pleno de acertos e contendo alguns equívocos e omissões. Bom, muito bom pra polemizar em cima. Mas, lembrei-me que perdi meu diploma de polemista por aí.

  2. Tácito Costa
    Tácito Costa 22 de Março de 2015 10:41

    Lívio, o comentário estava aguardando liberação, como não acessei Internet ontem, demorou a ser postado. abs

  3. Lívio Oliveira 22 de Março de 2015 11:24

    Valeu, Tácito. Desculpe a minha velha ansiedade. Abração e meus renovados parabéns pela boa luta cultural.

  4. João da Mata 23 de Março de 2015 14:25

    O BECO DA LAMA NÃO É SÓ SAMBA

    João da Mata

    Tem umas notícias que deixam a gente INfeliz. Repõem o que o tempo desgasta. O SABER QUE O BECO NUNCA VAI DÁ SAMBA

    É assim como TENTAR curar as chagas de um doente querido.

    O rosto muda, a boca da noite abre, e tudo que era triste fica descontente.

    No beco da lama tomava caldo de Cana no Orós para dá sustança. Papai vendia cachorro quente para manter a vida e eu comprava as linhas para pespontar e cozer a vida que precisa ser vestida.

    O cinquentão Nordeste foi transformado numa loja grã-fina. Sua vizinha, a antiga Praça das Cocadas também perdeu a graça. Saudades de gargalhar novamente com as piadas do Bispo de Taipu. Conversar sobre
    os tempos áureos do Cinema Nordeste. Nossa Pasárgada, enfim, conquistada
    e restaurada.

    Os boêmios só querem um pretexto para comemorar e a festa já começou em
    homenagem a um SAMBA nunca terminado.

    Depois de tomar umas tantas no antigo bar do Nazi alguém lembra que a lei
    é seca e pergunta como ir para casa. Por um momento a
    alegria foge, o semblante enrijece e alguém tem a brilhante sugestão de
    convidar a sociedade recreativa desunidos do Beco da Lama.

    Assim ela saberá que somos parecidos com o Rio de
    Janeiro e transformará tudo numa Lapa de boêmios e seresteiros. Não é
    possível que eles queiram transformar nossos hábitos, depois de aprendermos
    inglês.

    Todos os detalhes já foram miudamente planejados. Alguém sugeriu fazer um
    grande baile de inauguração com a orquestra tocando a valsa vienense para
    lembrar dos tempos que o Cinema Nordeste exibia os filmes de “Sissi, a
    Imperatriz”. Afinal, o velho e saudoso Nordeste foi sepultado. Um
    outro mais nostálgico e habituê do Beco da Lama prefere que seja tocado
    aquela música do Gonzaguinha: “Começaria tudo outra vez…”

  5. Alex de Souza 24 de Março de 2015 17:49

    Usando a premissa de réplica e tréplica, deixo mais um comentário e, com ele, encerro minha participação sobre este assunto.

    Sérgio, quando cito seu texto sobre a Samba como exemplo, não me refiro ao quesito ‘falta de checagem dos fatos’, mas ao ‘opinionismo pouco fundamentado’. Desculpe pela confusão.

    Outro espaço cultural público importante do qual não falei e cuja ocupação é completamente irregular é o Buraco da Catita. Depois de muita pressão e ruge-ruge, os frequentadores fizeram com que a prefeitura, na época de Micarla, se sensibilizasse e fechasse a rua, criando um passeio bem charmoso. O problema, mais uma vez, é a faLta de ordenamento e fiscalização: o Buraco da Catita vira e mexe tasca grades, tomando quase a totalidade da rua, para cobrar ingresso por um espaço que, por mais que eles tenham feito por merecê-lo, não lhes pertence.

    O único lugar no RN recheado de inocentes é o presídio de Alcaçuz. Repito o que disse anteriormente: pouco importa se o IFRN é uma ‘célula petista’, enquanto a instituição se ocupar de ocupar aquela rua de maneira transparente e aberta, como ao abrir edital de seleção para apresentações no palco que montou por lá. O que deveria servir de exemplo para vários equipamentos culturais da cidade e do estado.

    Quando você diz:”Durante a última campanha até panfleto do PT o Instituto distribuiu. Tenho testemunha.”, o que isso significa? Que alunos, professores ou funcionários foram coagidos a fazer campanha na rua do lado de fora do IFRN? Que mataram expediente de trabalho para distribuir panfletos a mando do partido, trajando farda ou uniforme de trabalho? Que o prédio ergueu-se sobre pernas de aço e concreto e começou a bradar ‘olê, olê, olá! Dilma! Dilma!’, enquanto cuspia milhares de panfletos sobre os céus da Cidade Alta? Devemos lembrar que qualquer pessoa tem direito de fazer campanha política na rua, dentro do restritíssimo e confuso calendário eleitoral brasileiro; faz parte da chamada democracia. O que não pode é no interior de prédios públicos. Se houve prática de crime, deve haver denúncia. Incentive sua testemunha a formalizá-la, com provas. Qualquer outra atitude seria conivente ou leviana. Também dá um belo furo.

    Se seu blog não faz jornalismo cultural, mais uma vez, peço desculpas. Parece que, pelo menos, faz jornalismo. Ou também terei me enganado?

    Lívio, deixe de besteira, rapaz, aponte aí nossos equívocos e omissões. Tá na chuva é pra se queimar.

    João da Mata, ando abstêmio, mas bote uma garrafa d’água com gás nessa mesa aí pra mim, homem!

  6. Sergio Vilar 24 de Março de 2015 18:26

    São muitos questionamentos. Vou deixar algumas perguntas para o debate. A Samba é tão somente uma entidade boêmia, sem o propósito de melhoria da situação do Centro? Se é assim, como vc insinua, porque tantas reuniões, inclusive em casa de assessores politicos, para a próxima eleição? A Samba poderia ou não usar o dinheiro público, inclusive com projetos inscritos em leis de incentivo, para inúmeras atividades de fomento à arte no Centro? A Samba, nesta gestão, fez algum projeto? Criou algum projeto ou ação nesta última gestão? Mesmo o pouco que fez, cumpriu com seus compromissos? Responde aí.

    Vamos para outra esfera, a dos governos. Eu como bravo paladino, estou sendo achincalhado por criticar a atual gestão cultural do Governo do Estado. Então este paladino é criticado por criticar o governo e é criticado por não criticar. Chega a ser gozado. Do lado da prefeitura tenho criticado a demora absurda para pagamento do FIC e dos pagamentos de cachês. Fui criticado porque expus o pagamento de R$ 160 mil para 10 artistas que tocaram no reveillon, mediante uma empresa. Daria R$ 16 mil pra cada, em média, correto? Khrystal, cachê top, recebeu R$ 15 mil, por outra empresa. Quatro desses dez artistas que, em média, receberiam R$ 16 mil, receberam R$ 8 mil. Pra onde foi o resto do dinheiro? Mas fui criticado. E agora sou criticado porque não critico a prefeitura. Ok.

    Enquanto estive em redação de jornal – por mais de dez anos -, lembro ter criticado sobremaneira a fiscalização no bar de Nazaré, que proibiu a coitada de colocar mesas na calçada. A situação de reverteu nessa gestão municipal. Cobri uma audiência pública promovida pela Câmara para discutir os problemas do Centro de forma mais irônica possível, já sabendo que não daria em nada, como não deu. Enfim, sempre defendi o Centro e critiquei o poder público sobre o descaso. Inclusive com matérias especiais!

    Se o nobre amigo tem amiguinho na diretoria da Samba e fica chateado com as críticas, me desculpe, elas vão continuar. Até porque integrantes da Samba sabem bater bem nos outros, mas não sabem ser (a)batidos. Escreveram um texto violento após eu divulgar – fui o único! – a programação do Pratodomundo e, depois, cobrei divulgação porque sequer os comerciantes sabiam direito que iria se passar. Isso ninguém critica – essa “liberdade” bequiana em descer o pau nos outros por qualquer besteira. Tudo lá é um drama. Então vou dramatizar também, no melhor estilo “dançando conforme a música”.

    Sobre o IFRN, a panfletagem foi na área interna do IFRN. E não vou eu formalizar denúncia, ne? Ora, se voltei em Dilma! rs Mas a tentativa de colonização daquele pedaço de Ruy Pereira é escancarada, pelamordedeus! Zé Reeira, claro, se aproveita. Como você disse, certo ele. E para eu falar isso, que é a minha visão acerca do negócio, como você tem a sua, eu preciso fazer pesquisa por amostragem para falar a respeito? Tenho que ter esse fundamento? E criticar a feérica e mágica administração do TAM a partir de uma matéria de jornal, sem ouvir o outro lado, é fundamentado?

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