Heine e o Dom Quixote

Ilustração: Salvador Dalí

“ na literatura universal é o Dom Quixote a primeira grandiosa obra de arte em prosa porque o humorismo é o sentimento da poesia em face da prosa da vida”. Heine

O poeta romântico e escritor alemão Heinrich Heine ( 1797 – 1856) foi um grande foi um grande leitor e admirador do Quixote. Num prefácio a uma edição alemã do Quixote de 1837, ilustrada por Tony Johannot, ele lembra dos doces momentos da infância passados na companhia do grande livro e diz que chorou quando leu a obra.

Escreve Heine nesse prefácio que ajudou a disseminar e popularizar a obra na Alemanha romântica e no mundo. Vida e feitos do engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha, descritos por Miguel de Cervantes Saavedra, foi o primeiro livro que li, quando já era uma criança ajuizada e relativamente ajuizada. Ainda me lembro perfeitamente daqueles tempinhos, quando saia de casa em surdina, de manha cedo em direção ao Jardim da Corte, para ler em paz o Dom Quixote. Era um belo dia de maio, a primavera em flor, na tranqüila luz da manhã, parecia ser toda ouvidos, louvadas pelo rouxinol, seu doce adulador, que cantou um hino tão carinhoso e suave, tão sentimental e entusiasmado, que os brotos envergonhados, desabrocharam….

Eu, porém, sentado num velho banco de pedra musguento, na chamada Alameda do Suspiro, perto da cascata regozijava meu pequeno coração com as grandes aventuras do corajoso fidalgo. Na minha sinceridade de criança, levava tudo muito a sério. Quanto mais grotescamente o destino tratasse o pobre herói, mas eu achava que era preciso ser assim, que o destino de ser ridicularizado fazia parte do heroísmo, assim como sofrer as coisas no corpo, e se essas eu sentia na alma, aquilo me causava pena…

O Dom Quixote é uma personagem de ficção que se transforma num mito. Um personagem que encarna alguns dos bens mais preciosos do ser humano: a luta por justiça, a generosidade e a ética. Até o romantismo o personagem era tratado como uma figura cômica. Com o romantismo a leitura do livro foi outra e o personagem cresceu assumindo feições de grande conteúdo simbólico e filosófico. A saga do cavaleiro da triste figura era a saga do homem lutando, sofrendo e perseverando na sua fugaz existência na terra.

A leitura dos românticos e do grande poeta Heine, em particular, ajudou na consolidação do personagem Quixote, como um dos maiores personagens que permeia toda a literatura. A loucura e sofrimento do herói cervantino é mostrada com muito humor, junto com seu par inseparável e igualmente grandioso.

Cervantes foi um grande humorista, mas seu engenho e arte estão longe do humor, observa Freud no tomo I de suas obras completas.

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