Henfil queria aboio

Ele foi um homem genial em sua curta e meteórica existência. Seu traço era cortante e tinha a exigüidade e síntese da poesia. Criou muitos personagens que tinham a cara e cacoetes dos brasileiros. Lutou incansavelmente contra a ditadura e, junto com seus dois irmãos, formaram um trio que dominou a cena brasileira nas décadas de exceção do regime político brasileiro.

Nos Estados Unidos seu desenho não fez sucesso. Claro, o “tio Sam” era um dos seus alvos preferidos na destilação do veneno. Veio morar em Natal e não foi feliz. Queria ouvir aboio e foi ferido por outros cornos. Ubaldo veio a Natal em 78, e levou sua mulher e alegria. Difícil colocar os pés novamente no chão e criar. Na criação ele vivia e dava o troco. Ubaldo virou “o paranóico”. Difícil no trato e na convivência, como os homens geniais. Berenice não sabia que ele gostava tanto dela. E ele só soube que a amava tanto quando a perdeu.

Em Natal morou na ponta do morcego e não gostou. Não conseguia produzir e teve sua casa roubada. Foi morar na Amintas Barros, onde conseguiu se isolar dos “chatos” e produziu um pouco mais. Trabalhou nos manuscritos de Henfil na China. Difícil foi tirar o nome da amada de suas produções subseqüentes e no forno. Em Natal, deixou alguns amigos e traços. A “Pax Turismo” ainda mantém os seus desenhos originais. A Associação dos Docentes de Ensino Superior (A ANDES) foi criada em 1980, e pediu permissão para usar a Graúna do Henfil como logotipo em suas camisetas. Henfil, um grande cartunista ligado aos movimentos de esquerda, não negou tal associação e seu traço esteve abrilhantando nossas camisetas e documentos durante muito tempo. Infelizmente o amigo Henfil faleceu precocemente e a Andes já não é mais a mesma. O seu desenho na camiseta é só mais um desenho que marcou a história de um belo movimento da história sindical do Brasil. Cresci junto e torcendo pelo Henfil. As cartas à sua mãe era o que tinha de melhor na antiga “Isto é”. Uma forma inteligente e lúcida de passar as mensagens em tempo de censura. Saudades de você, meu amigo. Pena que você não ouviu aboio na terrinha. Na última revista Palumbo uma série de fotos inéditas do Henfil e irmão quando esteve entre nós. Fotos tiradas pelo casal Bezerra. Saudades.

Obrigado por tudo!

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