Herberto Helder dentro de um livro

Por José Castello
Em A Literatura na Poltrona

No Brasil não se interessam por ele, mas o português Herberto Helder é um dos grandes poetas da língua. Em meados dos anos 1990, em viagem de trabalho a Lisboa, resolvi entrevistá-lo. Todos riam de minha pretensão. Helder não aceita prêmios e não dá entrevistas. Corresponde às suspeitas dos leitores com a ausência e o silêncio.

Passaram-me o telefone de um editor que seria seu amigo. “Se ele não o ajudar, ninguém mais ajuda”. Telefonei e expliquei minhas intenções. O editor foi sincero: “No máximo, você poderá vê-lo, à distância e em silêncio, como quem observa uma tela”. Falou de um bar, nas imediações do Largo do Rato, que Helder costumava frequentar. “Lá será possível vê-lo. Mas não espere mais que isso”.

Embora não fosse seu editor, era seu leitor apaixonado. Mas era também muito cético a respeito de seu futuro. “Camões morreu de fome, Helder não morrerá de fome, mas de tristeza”, me disse. Trago suas frases anotadas, aos garranchos, em meu diário de viagem. Sempre viajo agarrado a cadernos. Quinze anos depois, as palavras do editor português permanecem intactas.

Continuou a argumentar: “Ainda hoje, pouco se sabe da vida de Camões. Tudo o que sabemos com certeza é que era cego de um olho. Tudo o que sabemos era o que lhe faltava”. Também de Herberto Helder só temos uma imagem em negativo, comparou. “Como se ele não tivesse um corpo, ou o vestisse pelo avesso”.

Para me dar alguma esperança, ou para se livrar de mim, o editor me contou, ainda, que Helder só ia ao bar do Rato no meio da tarde, hora em que ficava vazio. E que se acomodava, sempre, na mesma mesa, inconfundível porque está ao lado da pilastra que sustenta os barris.

Pedi que me descrevesse o poeta e, não sei se lutando para se aproximar da verdade ou, ao contrário, desejando dela me afastar, traçou um retrato oral muito detalhado e cheio de nuances, digno dos inquéritos policiais. “Deve ter 65, ou 66 anos. É discreto e feio. Tem o ar aborrecido. Não parece um poeta”, resumiu.

Naquela mesma tarde, me dirigi ao Largo do Rato. Era, de fato, um bar pequeno e obscuro, que lembrava um depósito, ou um porão. Àquela hora, confirmando as palavras do editor, estava deserto. Três homens conversavam diante do balcão _ e mais nada.

Havia, sim, uma mesa encostada contra uma pilastra de pedra. Olhei para cima e deparei com os barris, que pareciam prestes a rolar. Tudo estava em seu lugar, menos Herberto Helder. Na mesa, uma toalha de xadrez, um porta guardanapos, duas taças vazias.

Escolhi uma mesa no lado oposto do salão, que me permitia observá-lo quando chegasse, mas que não me deixaria exposto. Abri um de seus livros e lá fiquei. O mesmo editor me passara algumas pistas da romancista Agustina Bessa Luís que, dias depois, eu entrevistei no Porto. Lembro da advertência que ele me fez: “É uma voz divina com o diabo lá dentro”.

A dura comparação valia, também, para Helder. Por que diabos, justo no dia em que decidi esperá-lo, ele não vinha? Li em algum lugar que era casado com uma enfermeira, que o vigiava com severidade e ordenava sua agenda. Quando solteiro, teve uma vida instável, foi locutor de rádio, bibliotecário, revisor, repórter. Chegara à poesia quase por engano _ como alguém que, em um restaurante, busca o lavatório e entra na cozinha.

Lá fiquei eu, lendo Helder, consolando-me com seus versos. Tomei uma garrafa de vinho. Outros homens entraram, ocuparam outras mesas, mas nenhum deles se parecia com o Herberto Helder que o editor me descreveu. Ele me contara que o poeta chegava em casa, sempre, antes das sete. A mulher não atrasava o jantar um só minuto. Já eram quase sete horas. Desanimado, paguei e me fui.

Há dois anos, voltei a Lisboa. Em uma livraria, alguém me apresentou a um importante editor português. “É uma bela coincidência”, ele disse, ao me cumprimentar. Era o mesmo editor que, por telefone, me guiara até o bar de Helder, explicou. Lembrava-se, em detalhes, de minha fracassada entrevista. Estranhei seu entusiasmo.

Convidou-me para um café. “Vou lhe contar a verdade: eu estava naquele bar, sentado diante do balcão”. Não teve dificuldades para me identificar, pois ninguém mais leria Herberto Helder naquela sala escura. Vigiou-me todo o tempo. Chegou a me seguir quando fui ao banheiro.

E então me fez a revelação mais dolorosa: “Naquela tarde, Herberto Helder bebia comigo. O terceiro homem era o dono do bar”. Cheio de fúria, mas lutando para conservar a elegância, perguntei: “E por que você fez isso comigo?”

Não tinha um motivo especial. Nada contou a Helder a meu respeito, ou ele teria ido embora. “Eu tramei tudo sozinho”, admitiu. Sempre desejou se tornar escritor, mas lhe faltava talento. Para se consolar, gostava, às vezes, de dirigir a realidade. “É como se eu a escrevesse”, comparou. “E o bom é que dispenso as palavras”.

Nessas horas, transformava outros homens, como Helder e eu, em seus personagens. Movia-os, manipulava-os, decidia o rumo de suas vidas. “Você fez parte de um dos livros que não escrevi”, resumiu. “Que não escrevi, mas vivi”.

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