Hilda de couraça

Por José Castello
A LITERATURA NA POLTRONA

Ainda pensando mais um pouco na literatura e na figura sempre inesquecível de Hilda Hilst. Diz-se, quase sempre, que Hilda é uma escritora “hermética”. Ela mesma se aborrecia com o clichê, que a isolava não só dos outros escritores, mas também da tradição literária e até da própria literatura. No mesmo “Fico besta quando me entendem”, de que falei na semana passada, encontro uma estupenda reflexão de Hilda sobre o tema do hermetismo. Ela nos ajuda a observá-la melhor _ e, até, a aceitá-la com mais coragem.

Admite Hilda, enfim, que é uma escritora hermética, mas não vê o hermetismo como um obstáculo, e sim como uma fronteira que aproxima pontos opostos. “O hermético, para mim, é o escudo, a carapaça, a repressão que os homens (e o escritor também, por que não?) usam ou precisam para se fecharen dentro de si mesmos e defenderem-se do exterior”. Ele nos desenha, ele nos leva a ser. É uma espécie de veste, ou mesmo de pele, com que nos protegemos do mundo. E mais: através da qual assinalamos nossas fronteiras e, em consequência, nossa presença (nosso espaço, nosso tamanho) no real.

O exterior, nos lembra Hilda, é ameaçador. “O exterior apresenta para o indivíduo propostas excitantes demais”. Propostas que a realidade humana não suporta e, em consequência _ através de governos, de exércitos, de polícias _ ela própria reprime. Mas esse esforço de defesa feito pela sociedade não é suficiente. “Esse hermetismo, esse escudo, essa repressão são então uma defesa necessária do ser humano diante do mando castrador que o cerca e o amordaça”. São aquilo em que o indivíduo, o sujeito resiste e onde continua, apesar de tudo, a ser.

A vida, para Hilda Hilst, era um contínuo choque de forças. Optar pelo hermético, em consequência, não era fugir do humano, ou negá-lo, mas afirmá-lo. Era preparar-se para, enfim, o humano. Mas há uma contrapartida perigosa: o amor. Só o amor _ “uma grande abertura de intensidade” _ desorganiza e rasga essa couraça. Só o amor revela ao outro “que ele pode ser muito mais”. Voltamos, então, à literatura, que nada mais é que uma expansão do amor sobre as palavras. As palavras se expandem, se derramam sobre o mundo e o envolvem com sua couraça fluida e singular. Por isso os apaixonados parecem habitar redomas: é como se vivessem a experiência de dividir a mesma pele com o ser amado. A literatura também traz esse sentimento, de ultrapassagem, de ir além do que habitualmente é. Só ela (a arte) nos´injeta coragem para ir além de nós mesmos.

Também a literatura, em consequência, é afirmação do ser. Também ela é _ para usar a expressão clássica de João Gilberto Noll _ pura “máquina de ser”. Algo a move: um intenso desejo de explosão, isto é, de liberdade. “Talvez alguns queiram, mas poderão aguentar a sua nova condição?” _ Hilda se pergunta. Por isso, também, alguns livros, grandes livros, se tornam “insuportáveis”. Pelo mesmo motivo, talvez por isso a maior parte dos leitores ainda não suporte a força da literatura de Hilda. Literatura que não é simples reprodução, ou representação, ou narração. Que é muito mais que isso: como as grandes literaturas (Pessoa, Clarice, Noll, Raduan, Cabral) é a transposição, um tanto temerária, de espaços antes vedados ao ser. É a fixação de novos limites _ novas couraças _ que expandem e alargam nossa vida sobre o mundo. É a construção de novos e mais amplos hermetismos _ sim, agora podemos afirmar, sem medo, que Hilda era uma escritora hermética _, que nos ajudam a resistir em um mundo no qual tudo tende, cada vez mais, à dispersão e à aniquilação.

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