Hilda Hilst & John Lennon

Por Alcir Pécora
FOLHA DE SÃO PAULO

No início dos anos 90, frequentei com certa regularidade a Casa do Sol, em Campinas, onde morava Hilda Hilst, com alguns amigos, além das dezenas de vira-latas. Hilda me recebia com sua bela voz lançando perguntas mais ou menos constrangedoras em forma de saudação.

Estava sempre vestida com batas longas, soltas, com estampas coloridas, que me sugeriam imagens hippies e anacrônicas, mas sem deliquescência, pois era incontornável a usina de força e inteligência que irradiava dela.

Se a casa ficava num ermo, o movimento dentro dela e nos arredores, da maneira como Hilda a narrava, era intenso.

Apareciam visitantes de outras partes do mundo e do além-mundo; discos ziguezagueantes deixavam signos no ar; vinha a mãe, falecida havia anos, envolta num xale, que apenas se descobria para lhe desejar boa-noite; o pai adorado, também falecido, era residente; vozes em várias línguas sopravam ao vento, entre as árvores; vultos assomavam no portão: alguns ternos, outros, terríveis; cientistas e artistas, sem restrição de tempo, língua e lugar, a visitavam amiúde. Até Camões alojou-se no bolor surgido da noite para o dia na parede do banheiro.

O lugar era, portanto, animadíssimo. Para mim, era evidente que a Casa do Sol, seus habitantes e eventos, tudo era parte da invenção, gigantesca e totalizante, de Hilda, cujo suporte extrapolava a escrita. Confesso que eu mesmo sentia medo de ser teletransportado para sua ficção.

Dos tantos relatos incríveis que ouvi de Hilda, repasso um, na qual tive um pequeno papel e, temo dizer, também um papel pequeno. Certo dia, ela me contou que, num disco de John Lennon que ela ouvira, numa rádio local, uma voz dizia em português de Portugal: “E se eu dissesse que Deus era o Amor”.

“Que disco é esse, Hilda? Você se lembra ao menos do título da música?”, lhe perguntei. Tudo que ela recordava era que chegara a ligar para o DJ da rádio de Campinas pedindo-lhe para tocá-la novamente e que ele mencionara tratar-se de um disco de Lennon em parceria com outro cantor. Não tinha ideia do nome, mas acudiu-lhe um pormenor: o DJ dissera que a faixa estava no lado B do LP.

Não me ocorria nenhum álbum inteiro que Lennon partilhasse com outro cantor, a não ser um, que eu tinha em minha coleção: “Pussy Cats”, de Harry Nilsson. Tão logo deixei Hilda, fui direto para casa e me pus a ouvir o lado B do disco, com os ouvidos colados no aparelho de som.

Divulgação

Capa do disco “Pussy Cats” (1974), de Harry Nilsson e John Lennon

Capa do disco “Pussy Cats” (1974), de Harry Nilsson e John Lennon

Não precisei esperar muito para levar um susto: já ao fim da primeira faixa do lado B, ouvi a tal voz sussurrar qualquer coisa próxima de “Se eu dissesse…”, com sotaque português. Não entendia bem o resto, mas aquele início de frase soava mesmo espantosamente lusitano.

Tratava-se do cover de “Save the Last Dance for Me”, um velho R&B de autoria de Doc Pomus e Mort Shuman, que alcançara o topo das paradas, em 1960, com The Drifters. Manejando o equalizador, fui tentando separar o som instrumental e os backing vocals dessa voz ao fundo, que finalmente se revelou bem clara.

Desgraçadamente, não havia português algum, mas sim as palavras que davam título à canção, escandidas de um modo particular. “Save the Last Dance for Me” soava próximo de “Sei/di/lés/déns/fer/m´ou”, graças a um “o”, que finalizava a vocalização. Ou seja, a sequência guardava coincidências fonéticas com “S´eu/di/sés/deus/ér´/mor”.

O que faltava para ser exatamente “E se eu dissesse que Deus era o Amor” era um nada para a fina sintonia de Hilda, acostumada a distinguir frases inteiras nos chiados entre as estações do rádio.

No dia seguinte, tomado menos pela emoção do espírito científico do que pela do espírito de porco, contei-lhe a minha descoberta que, a bem dizer, anulava a dela.

Ela ouviu tudo pacientemente, duvidou aqui e acolá, me explicou tudo de novo, como se eu não tivesse ouvido bem, e, enfim, menos desconsolada do que consolando a mim, gentilmente mudou de assunto.

Meses depois, ela me contou a mesma história sobre John Lennon e a frase lusa, sem qualquer menção ao meu reparo anterior. Me senti perdoado.

ALCIR PÉCORA, 59, é professor de teoria literária da Unicamp, autor do livro “Máquina de Gêneros” (Edusp) e organizador de “Por Que Ler Hilda Hilst” (Globo).

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